Foz do Iguaçu tem presenciado um exemplo extremo da ''digitalização do mundo'', essa necessidade imposta pelo modernismo para nivelar humanos a números. Em setembro, boa parte da população acompanhou a contagem de assassinatos na cidade, tentando prever quando seria superado o índice de homicídios de 2000. Era certo que a marca de 178 mortes do ano passado seria quebrada três meses antes do reveillon.
Francisco Pereira foi o escolhido. Nascido na Santa Casa Monsenhor Guilherme, o filho de Francisco e Marta tinha olhos escuros, cabelos claros e corpo franzino. Durante o sepultamento, os pais lembraram das manias do filho, do seu bom desempenho nas peladas de várzea e de sua dedicação aos animais.
Lembraram ainda que o filho odiava estar cercado de números, fato que acabou virando birra. Era normal ele esquecer os dígitos da conta corrente, da senha do banco, do cartão de crédito e do aniversário de casamento. Quando criança, repudiava ser avaliado com notas pelos professores.
A família também lamentou as circustâncias do crime. A vítima passeava com seu amigo Roberto pela Avenida Brasil, no centro de Foz, quando foi assaltada por dois rapazes. Sem dinheiro, foi obrigado a entregar o relógio, uma corrente de bijouteira e o calçado importado do Paraguai. O mesmo aconteceu com seu colega. Apesar do roubo, os assaltantes executaram as vítimas com balas de pistola calibre 7.65.
Essas lembranças pertencem e interessam apenas aos parentes. Para os peritos criminais, médicos legistas, delegados, autoridades ligadas à segurança pública e jornalistas, Francisco Pereira foi a 179ª pessoa a ser assassinada em Foz. O vendedor foi o escolhido para marcar a quebra do índice de mortes do ano passado. Um tratamento tão lógico e banal, como o dispensado para Roberto, a vítima posterior, anunciada como o 180º assassinado na fronteira.

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