Número de vítimas cai com novo código
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quarta-feira, 17 de junho de 1998
Valmir Denardin 
Nos três primeiros meses de vigor do Código de Trânsito Brasileiro, o número de pessoas com fratura na coluna vertebral em decorrência de acidentes automobilísticos caiu 50%.
A informação foi repassada, em entrevista à Folha, pelo ortopedista Tarcísio de Barros Filho, professor da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Sociedade Médica Internacional de Paraplegia.
Barros Filho preside o 37º Congresso Mundial de Traumatismo da Coluna Vertebral, que está sendo realizado em Foz do Iguaçu.
Segundo ele, os números são preliminares e relativos ao Estado de São Paulo - onde a universidade desenvolve pesquisas - mas podem ser aplicados para uma avaliação dos efeitos da nova lei de trânsito em todo o Brasil.
O código entrou em vigor no País no dia 23 de janeiro. Para chegar a essa conclusão, Barros Filho comparou o número de acidentes ocorridos entre 23 de janeiro e 23 de abril deste ano com o mesmo período do ano passado.
Acidentes de carro são a principal causa de lesões na coluna no Brasil. Leia a seguir, os principais trechos da entrevista.
Folha - Qual é a principal ameaça à saúde da coluna vertebral hoje?
Tarcísio Eloy Pessoa de Barros Filho - Temos dois aspectos de doenças da coluna vertebral: doenças traumáticas, provocadas por fatores externos (quedas, acidentes de carro, tiros, violência) e aquelas doenças específicas (tumores, inflamações, doenças degenerativas provocadas pelo envelhecimento). Nesse congresso, estamos debatendo as lesões traumáticas que afetam a coluna. A principal causa é o acidente de trânsito. A segunda é o ferimento por arma de fogo. Depois, as quedas e acidentes por mergulho, quando a pessoa mergulha num local raso, bate a cabeça no fundo, quebra o pescoço e lesa a medula. Das fraturas de coluna, o acidente de carro reprenta em torno de 40% delas. Mas, nas cidades grandes, como São Paulo, o ferimento por arma de fogo chega a ser a primeira causa das lesões de medula.
Folha - Qual é a porcentagem de lesões de coluna entre a população brasileira?
Barros Filho - Estima-se que haja 50 lesões traumáticas de coluna por cada grupo de 1 milhão de habitantes por ano. Como o Brasil tem cerca de 160 milhões de habitantes, temos 8 mil casos por ano.
Folha - Com a entrada em vigor do Código de Trânsito Brasileiro, os ferimentos da coluna provocados por acidentes de trânsito diminuíram?
Barros Filho - Temos apenas dados preliminares mas, no Estado de São Paulo, nos três primeiros meses de vigor do código, constatou-se uma diminuição de cerca de 50% das lesões provocadas por acidentes automobilísticos, comparando-se com os mesmos meses do ano passado.
Folha - Qual é a melhor forma de diminuir a incidência das lesões de coluna?
Barros Filho - É a prevenção dos acidentes. Um bom trabalho foi o Código de Trânsito. Nesse aspecto, precisamos de campanhas para estimular o uso do cinto de segurança, do air bag e de encosto alto para a cabeça nos bancos. Precisamos também de campanhas contra a violência, que preguem o desarmamento da população. Necessitamos ainda de campanhas de prevenção de acidentes de mergulho. Noventa por cento desses acidentes ocorrem na faixa etária dos 10 aos 25 anos. São crianças e adolescentes que mergulham em locais rasos, batem a cabeça e ficam tetraplégicos. No Estado de São Paulo, estamos fazendo campanhas em escolas para alertar sobre esse perigo. Além de beneficiar a população, essas campanhas favorecem também o governo, porque o tratamento das lesões é muito caro. O paciente fica internado dois ou três meses. Em torno de 40% deles ficam com lesão medular e não se recuperam, o que vai afetar sua produtividade ou até impedi-los de trabalhar.
Folha - O estilo de vida moderno favorece o surgimento de lesões de coluna?
Barros Filho - Percebemos que as lesões degenerativas têm aumentado, assim como as lesões por excesso de atividades repetitivas, por erros de postura e de modo de carregar pesos.
Folha - O que é a tetraplegia e a paraplegia?
Barros Filho - A tetraplegia ocorre nas fraturas da coluna cervical na altura do pescoço. Ela paralisa tanto os membros inferiores quanto os superiores, comprometendo inclusive a respiração. A paraplegia é provocada por lesões na coluna dorsal e lombar, paralisando apenas os membros inferiores. Essas lesões são provocadas por um rompimento ou compressão da medula, impedindo a passagem de impulsos nervosos por ela do cérebro para os membros e vice-versa.
Folha - Com o avanço das pesquisas na área, é possível prever a reversão da paraplegia e da tetraplegia?
Barros Filho - As pesquisas estão progredindo muito rapidamente. Em animais, como ratos, coelhos, gatos e cachorros, já se conseguiu a reversão. Acredito que, na próxima década, isso já será possível em humanos. Agora é uma questão de acertos para se passar o que se conseguiu em animais para o homem.
Folha - Quais são os principais avanços no tratamento de lesões da coluna hoje no mundo?
Barros Filho - Os avanços nos tratamentos com drogas têm sido muito grandes. Têm surgido várias medicações novas que, ou ajudam a evitar que um grande número de células atingidas pelo traumatismo morram, ou estimulam o funcionamento das células que não morreram. No aspecto de tratamento cirúrgico, com a fixação com placas e a descompessão cirúrgica, estamos conseguindo estabilizar a coluna, fazendo com que ela fique firme, para evitar um segundo trauma sobre a medula. Outro campo que apresenta avanço são as tentativas de regenerar a medula, com o enxerto de células do sistema nervoso fetal, enxerto de nervos periféricos da própria pessoa. Nesse caso, as experiências em animais têm apresentado bons resultados.
Folha - Quais são os países mais desenvolvidos nessas ténicas?
Barros Filho - Há boas pesquisas em todos os lugares, principalmente nos Estados Unidos e na Europa. Os laboratórios privados estão pesquisando novas drogas, mas é em universidades públicas que ocorre a maioria das pesquisas. A Universidade de São Paulo tem um grupo de pesquisa muito avançado, com drogas e em animais. Hoje há um interesse muito grande nessa área, aumentado em parte devido ao acidente com o Christopher Reeve (ator norte-americano, que interpretou o Super Homem no cinema. Em maio de 95, Reeve sofreu uma queda quando andava a cavalo, quebrou a coluna cervical na região do pescoço e ficou tetraplégico). O acidente acabou mobilizando muito a opinião pública, principalmente nos Estados Unidos, para investimentos em pesquisa da lesão medular.
Folha - O senhor acredita que, com os avanços da medicina, o caso de Christopher Reeve possa ser revertido nesse prazo de uma década?
Barros Filho - É um exercício de futurologia. Mas, se se conseguir as drogas e os procedimentos cirúrgicos que estimulem a recuperação, é possível avanços mesmo em casos crônicos como o dele.
Folha - Há a possibilidade do surgimento de uma droga salvadora para as lesões de coluna, que represente o que o Viagra está representando para o tratamento da impotência sexual?
Barros Filho - Tenho a impressão que a solução para a lesão de medula será uma solução mista, que vai misturar tratamento cirúrgico, com o enxerto de nervos e células, com drogas. É um problema muito complexo para ser resolvido por um remédio isoladamente.


