Josoé de CarvalhoTrabalho infantil Patrícia (à esquerda), 12 anos, no Aterro Sanitário: ‘Quando começarem as aulas eu paro de vir aqui’Dois meses após levantamento feito pela Autarquia do Meio Ambiente (AMA), cadastrando e restringindo a pouco mais de trinta o número de ‘‘garimpeiros’’ que trabalham no Aterro Sanitário de Londrina - ou Lixão da zona leste -, a situação ainda não está normalizada. Pelo menos essa é a impressão das próprias pessoas que trabalham no local.
Segundo elas, o Lixão foi invadido por ‘‘estranhos’’ que, além de atrapalhar o serviço, fazem constantes ameaças contra quem trabalha regularmente. ‘‘Era para ficar só a gente, mas cada vez está entrando mais gente. No dia em que todo mundo vem, fica impossível trabalhar’’, aponta João dos Santos, o mais velho garimpeiro do Lixão - há 22 anos trabalhando no mesmo lugar.
As luvas e botas, distribuídas pela AMA para proteger os garimpeiros também não são unanimidade - nem todos utilizam os equipamentos. João dos Santos, por exemplo, estava ontem sem luva ou bota, e disse que ninguém do Aterro recebeu máscaras da AMA, como foi divulgado na época pela própria Autarquia. ‘‘Hoje eu desisti da bota e vim só de sapato. Antes eu até usava luva, mas deu um ‘negócio’ na mão que demorou um ano para sarar. Então não uso mais.’’
Ilma Reis Santiago, que há mais de ano trabalha como garimpeira no Lixão, também reclama da invasão de ‘‘estranhos’’. ‘‘Vem gente de todo lugar. E se a gente for falar alguma coisa ainda arruma briga. Então é melhor ficar quieta para não ter confusão’’, disse. Santiago trabalhava ontem com um par de luvas que ela mesmo trouxe de casa, porque - segundo explicou - a que foi cedida pela AMA não servia para trabalhar. ‘‘Era grossa demais, com ela eu não tinha condições de garimpar. E a bota que eles deram já está furada.’’
O encarregado Arlindo Nunes, indicado pela Vega-Sopave para coordenar os trabalhos no Lixão, também está preocupado com o aumento no número de garimpeiros. ‘‘Piorou muito. Tem ladrão, encrenqueiro, bêbado. Um que quer puxar a faca para o outro. Isso acontece direto. Acho que tem 50 pessoas ou mais aqui, quando vem todo mundo’’, indica. ‘‘A AMA devia impor um limite e não permitir a entrada de mais ninguém.’’ Nunes observou que, na segunda-feira, o movimento costuma ser fraco no local, mas que a partir de hoje vira um ‘‘inferno’’.
A garimpeira Clorezi dos Santos é uma das que trabalhavam ontem no Lixão sem a ‘‘permissão’’ da AMA. ‘‘No dia que eles fizeram o cadastramento eu não estava e depois eles não voltaram mais. Não ganhei luva nem nada. Mas já faz mais de um ano que venho trabalhar aqui’’, ponderou. ‘‘Desse tempo para cá, agora é que está pior, com muita gente.’’
Junto com Clorezi, estava a sobrinha Patrícia dos Santos, 12 anos de idade. Com as mãos descobertas e a roupa encardida, Patrícia explicou que foi ao Lixão apenas porque está em período de férias - diz ela, que cursa a 4ª série. ‘‘Eu só cato latinha e tomo cuidado para não me machucar. Quando começarem as aulas, não vai dar mais para vir aqui’’, disse a garota. Segunda ela, ninguém impediu que ela entrasse e trabalhasse no local.
Na época do cadastramento, a Autarquia do Meio Ambiente - em acordo com o Conselho Tutelar dos Direitos da Criança e do Adolescente - não cadastrou nenhuma criança para evitar o trabalho infantil. A Secretaria de Ação Social também foi acionada no sentido de impedir que os pais levassem os filhos para o Aterro.

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