Novos dividem sentimentos
A imagem do maltrapilho errante, que passa de cidade em cidade vendendo badulaques, arcos, flechas, cocares, balaios e outras peças artesanais não atrai mais as crianças indígenas.
Segundo a coordenadora da escola da reserva de São Jerônimo, Nilza Fernandes Batista, 45 anos, há 18 no magistério voltado ao ensino do índio (trabalhou com pataxós e maxacalis), ao mesmo tempo que lutam contra um arraigado sentimento de baixa estima, as novas gerações querem, cada vez mais, exercer atividades intelectuais, ainda que nos limites de sua aldeia.
Ela cita como exemplo a catarinense Marlene do Carmo Veloso, 35 anos, uma das professoras dos cerca de 100 alunos que frequentam o primeiro grau na escola da comunidade, considerada uma das mais miscigenadas do Paraná. Marlene é quase um caso pioneiro, não fosse o detalhe de que ela não concluiu o curso de pedagogia de uma faculdade de Cornélio Procópio.
‘‘Abandonei a faculdade no primeiro ano porque engravidei’’, explica Marlene, que nasceu metade guarani (o pai tinha 100% da etnia no sangue), metade branca, em uma reserva guarani em Chapecó (SC) e orgulha-se de ter sido uma das primeiras índias a frequentar ambiente universitário no Paraná.
‘‘Não tenho traços de índia, poderia ter negado minha raça, mas percebi que tinha condições de provar que minha origem não me limitava em nada e resolvi espalhar por todo lado que era uma guarani’’, recorda-se.
Marlene lamenta o fato de ter sido orientada pelo pai a não assumir sua etnia e, principalmente, de não saber falar guarani. ‘‘Meu pai disse que queria me proteger, que não queria que fosse discriminada, mas foi um grande erro, que cobro dele todos os dias’’.
A professora acredita que fez parte de uma geração de transição, que carregava dois sentimentos conflitantes: o de ruptura forçada com as antigos hábitos e costumes das aldeias e a revolta, consequência da conscientização da existência de um processo secular de exploração e aculturação.
Matizados, os dois sentimentos se fundiram e formaram uma nova concepção para o ensino dos indígenas, em que a ambição cultural é maior que a ambição financeira. Os 500 anos do Brasil branco estão gerando reflexão e lições de derrotas e conquistas. ‘‘A história dos índios não é estanque, ela é dinâmica. Nossas crianças precisam aprender isso para encarar o futuro. Hoje a gente percebe que eles querem se qualificar e aplicar o que aprenderam na própria reserva’’, diz Nilza.
A conquista da cidadania, prioridade que norteia a atividade de organismos oficiais e não governamentais no País, também rege a pedagogia da escola. ‘‘A educação é voltada a higiene, a atividades artísticas convencionais, esportivas, mas também é ressaltada a importância de se falar a língua da tribo, o valor da caça, do artesanato, da música e da dança dos ancestrais’’, enumera a coordenadora.
A opinião é unânime entre as professoras: os indígenas são mais disciplinados e serenos em sala de aula do que as crianças da cidade, o que faz a convivência entre mestre e aluno ser mais harmoniosa do que nas escolas convencionais. O único problema para o aprendizado é o excesso de faltas, o que, surpreendentemente, é tolerado. ‘‘Eles vão caçar, pescar, procurar ervas para a doença do pai e da mãe. São as aulas práticas do modo de viver indígena, uma coisa muito importante para o desenvolvimento deles. O índio não sabe viver sem liberdade’’, afirma Nilza.
A coordenadora só lamenta a evasão escolar elevada dos adolescentes da comunidade quando eles começam a frequentar o ensino médio na cidade. Segundo ela, além de não se adequarem à rigidez curricular, eles sofrem problemas de adaptação e preconceito. ‘‘Temos planos de fazer um trabalho de conscientização entre os jovens brancos para eles facilitarem a integração. Mas isso deve ser um esforço de toda a sociedade’’, lembra. (L.F.M.)

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