Novo órgão, presente de Natal
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domingo, 11 de janeiro de 1998
Londrina 
César AugustoEm busca do tempo perdidoLuiz Carlos araújo Regis, que recebeu rim no dia 25 de dezembro: Quero recuperar a normalidadeFoi como um presente de Natal muito esperado. Um dia o Papai Noel teria que vir para mim. Agora, é tomar todos os remédios e cuidados para evitar a rejeição, voltar a trabalhar, fazer as coisas do dia-a-dia, recuperar a normalidade e correr atrás do tempo perdido, diz Luiz Carlos de Araújo Regis, técnico em contabilidade aposentado por invalidez, 29 anos, que no dia 25 de dezembro recebeu, em transplante realizado no Hospital Evangélico (HE) de Londrina, um rim doado pela família de um morto que não pode ser identificado.
Estou muito feliz. Só tenho que agradecer à equipe da central, à equipe médica e ao hospital. Daqui para frente, tudo vai mudar na minha vida, que voltará a ser normal. Quero recuperar os anos perdidos em consequência da doença, voltar a estudar e a trabalhar, comenta Claudio Adriano Campos, 22 anos, que dia 26 de dezembro recebeu em transplante realizado no HE uma córnea do mesmo doador que beneficiou Luiz Regis.
Os dois foram os primeiros doentes de Londrina a receber em transplante órgãos captados pela Central Regional Norte de Transplantes (CRNT), que funciona desde 12 de dezembro. Claudio Campos sofre de ceratocone - deformidade da córnea - há nove anos, quando foi obrigado a abandonar os estudos na 7ª série por causa da doença. A deficiência visual era nos dois olhos, o que dificultava a leitura e me causava muita dor de cabeça. Acabei tendo que sair da escola, conta Campos.
Depois de muitas consultas médicas, tratamentos em Londrina e São Paulo e dificuldades no uso de óculos e lentes, Claudio Campos entrou na fila de espera pela doação de córneas. Foram longos e difíceis estes anos. Minha vida não teve normalidade. Não podia viajar e ir a festas sozinho, o que é comum na minha idade. Consegui um emprego numa padaria, mas porque não enxergava direito sofri um acidente num cilindro e esmaguei dois dedos. Em outro, fui demitido quando descobriram que tinha deficiência visual. Mas o pior de tudo foi ter que parar de estudar.
Ele conseguiu a primeira doação há sete meses. O transplante da córnea no olho esquerdo - realizado pelo oftalmologista Francisco Eugenio Campiolo - foi um sucesso. A melhora é progressiva, com o passar das semanas. Hoje, meu olho está ótimo. Estou enxergando quase que perfeitamente. Logo, logo, meu olho direito também estará bom, graças a Deus e ao doutor Campiolo, que é muito competente.
Os dois transplantes foram feitos gratuitamente, com cobertura completa do SUS. Acredito que a nova lei possa ajudar no aumento do número de doadores, que infelizmente é pequeno, e a salvar muitas vidas. Eu mesmo tive uma prima morta aos 18 anos de idade porque não encontrou doador de rim, o que é um absurdo, ressalta Campos. É preciso, junto com a nova lei, uma campanha de conscientização sofre esta importância e necessidade de doações. A minha experiência, de anos na fila de espera e dois transplantes, pode garantir que em Londrina não há o risco de negócios e comercialização de órgãos. As pessoas podem ficar tranquilas em relação a isso.
Luiz Regis descobriu que é renal crônico em 1991, e começou a fazer sessões de hemodiálise em abril de 95, ainda em Salvador (BA), onde morou até outubro último. Ele veio para Londrina em busca de melhores condições de tratamento médico e não se arrepende. Na Bahia, o número de transplantes é muito pequeno. A fila de espera é maior e a infra-estrutura médica mais precária. Aqui o atendimento tem sido muito bom, o transplante foi bem realizado e a recuperação tem sido boa.
Ele conta que teve a cobertura hospitalar feita por um plano de saúde privado, mas que os remédios pós-operatórios contra a rejeição são caros. Vou gastar cerca de R$ 10 mil em 15 dias, mas vai valer a pena. O maior problema, segundo ele, existe para outras pessoas, que não têm condições financeiras e por isso continuam à espera de doação e dos remédios distribuídos pelo governo. Os renais crônicos ficam presos às máquinas de diálise três vezes por semana.
A doença me fez grandes estragos. Tive que abandonar os estudos e aposentar-me precocemente, conta Regis. Agora, resta esperar que não haja rejeição, que o rim comece a produzir urina e ele volte a uma vida normal, sem as limitações de um renal crônico. Regis é solteiro, mora com a mãe Lygia e ainda está usando uma máscara para evitar contaminações respiratórias. Ele diz que a nova lei é boa, mas seria necessária uma campanha para maiores esclarecimentos sobre a morte encefálica e a importância das doações. E mais recursos públicos para o setor. Sem isso, o problema continuará sem solução.
(Osmani Costa)


