Nas chuvas torrenciais, no sol inclemente ou nas gélidas rajadas do inverno, Londrina já foi uma cidade na qual seus moradores se alojavam quase que exclusivamente em construções de madeira.

Em algumas das centenas de reportagens que assinou, o memorialista Widson Schwartz lembrou os estudos de arquitetos como Antônio Carlos Zani e Humberto Yamaki sobre como a madeira saiu da Mata Atlântica e abarrotou serrarias, antes de virar tábua e caibro, ripa e viga, forro e assoalho.

O primeiro, no trabalho “Repertório Arquitetônico das Casas de Madeira de Londrina”, de 2005, publicou, que entre 1940 e 1959, o município aprovou a construção de 7,7 mil casas feitas com matéria-prima florestal . O segundo, em “Labirinto da Memória - Paisagens de Londrina”, um livro lançado em 2006, explica que a preferência inicial pelo material estava relacionada à tradição e cultura de origem dos imigrantes, a presença de muitos mestres carpinteiros e a abundância de árvores apropriadas para a finalidade, caso da peroba-rosa, por vezes derrubadas dentro dos próprios lotes.

Imagem ilustrativa da imagem Novo ícone vertical em madeira no Centro Histórico?
| Foto: Divulgação

A cidade que optou por se reconstruir de modo incessante modificou seu horizonte e, décadas depois, é um imenso aglomerado de alvenaria.

Um trabalho produzido sob a liderança do professor da UniFil, o arquiteto Lucas Raffo, tenta usar a imponência de uma torre em forma de parábola, com mais de 20 metros de altura, para atingir um contraponto visual de ângulo inédito entre as formas vivas de um pequeno fragmento da mata com a rigidez monótona dos espigões.

O projeto Mirante da Memória desenhado pela equipe do professor Raffo também acrescenta uma nova tentativa de manter o burburinho ativo do Bosque Central ao reintroduzir a madeira com destaque na arquitetura do Centro Histórico.

O equipamento turístico é descrito também como um bem cultural que seja capaz de provocar reflexões sobre a colonização, a identidade urbana e a urgência da sustentabilidade.

“O bosque é um espaço democrático, de acesso livre, com caminhabilidade, frequentado por pessoas de todas as idades, além de ser um berço histórico de Londrina”, explica o arquiteto sobre a escolha da área verde para receber a nova estrutura. Ele frisa também que a torre realçaria a conexão temporal que o Centro Histórico provoca ao misturar sensações que evocam a passagem do tempo.

Vista de 360 graus

O projeto prevê uma construção em madeira engenheirada que alcance 26 metros, com o visitante atingindo o máximo de 21 metros, no sétimo pavimento, com uma perspectiva em 360 graus em torno de um tronco de peroba dentro de uma caixa de vidro. “O uso de material renovável na construção foi uma decisão tomada pelo grupo desde o início porque queríamos fazer um projeto que impactasse menos o ambiente durante o processo de construção e fosse plenamente sustentável, além de fazer uma referência ao material que construiu a Londrina dos primórdios, aplicando, no entanto, uma leitura de vanguarda, outra característica marcante da identidade regional”, explica.

O edifício vertical seria erguido com a tecnologia da madeira laminada colada, tratada para suportar longos períodos e as adversidades climáticas mais extremas. Ele lembrou que a arquitetura de madeira está se destacando em grandes eventos internacionais como a Expo Osaka 2025 e seu grande pavilhão feito de madeira encaixada. “É algo cada vez mais contemporâneo. Todos estão de olho nas possibilidades de construir em madeira”, afirma.

Sete pavimentos

O térreo abrigaria uma recepção com registro digital, sanitários e os acessos às escadas e ao elevador panorâmico. O primeiro pavimento seria reservado para exposições, o segundo para cursos, workshops e pequenos eventos. Do terceiro ao quinto, um pequeno memorial sobre como a cidade avançou década após década. E no sexto, a Caixa da Memória e Pertencimento, com um mosaico de pessoas comuns misturadas à grandes personalidades históricas do município. “O projeto pode ser executado sem derrubar qualquer árvore, mantendo todo o espaço de circulação, inserindo um edifício de traços contemporâneos no coração da cidade", salienta Lucas Raffo. De acordo com a estimativa dos autores, o investimento necessário para a obra seria de R$ 12,7 milhões.

Imagem ilustrativa da imagem Novo ícone vertical em madeira no Centro Histórico?
| Foto: Divulgação

A motivação para conceber o mirante foi o Concurso Marco 100 Anos de Londrina, uma disputa organizada pela sociedade civil com chancela oficial, liderado pelo Clube de Engenharia e Arquitetura, e vencido pela equipe do arquiteto Thiago Figueiredo Zani, com a proposta “Sementes do Centenário”, que também usa a madeira para ornamentar o Lago Igapó 2.

Desafios

O resultado negativo junto à banca, que excluiu o projeto da lista de finalistas, não enterrou as esperanças de que o prédio de madeira instalado no canteiro central do bosque seja de fato erguido um dia, principalmente em um contexto no qual os urbanistas alertam sobre a necessidade do poder público continuar estimulando investimentos na área central. “Queríamos divulgar este trabalho na comunidade porque foi uma atividade que nos deu prazer e ficamos muito satisfeitos com o resultado final, apesar do insucesso no concurso. E claro que se houver interesse do poder público, vamos colaborar”, justificou. O Núcleo de Comunicação da Prefeitura disse que a gestão não tinha conhecimento da existência do projeto e por isso não comentaria sobre um eventual interesse de “adoção”.

A Folha apurou que, por estar próximo a duas edificações tombadas (o prédio da Secretaria Municipal de Cultura e a Biblioteca Pública), a instalação do mirante exigiria uma apreciação pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural de Londrina (Compac). Outro complicador seria a possibilidade de tombamento do próprio Bosque Central, um processo que já está em andamento. Neste caso, a instalação se tornaria praticamente impossível.

Sobre a sujeira e mau cheiro que aflige o Bosque, consequência dos excrementos de uma multidão de pombas-amargosas, os autores da proposta explicam que o mirante seria instalado no centro da passagem de pedestres, próximo da Avenida São Paulo e longe da copa das árvores e dos dejetos. “O interior é vedado e estaria protegido, mas a colocação deste novo equipamento também seria uma nova oportunidade para fazer um plano de controle biológico”, defende.

Todos os integrantes da equipe que assina o projeto são ligados à UniFil: além do professor Raffo, os profissionais Bruna Santos, Gabriel Cordioli, João Luiz Pedro Junior formados na faculdade de Arquitetura e Urbanismo e o aluno Matheus Guedes, que concluiu a graduação no final de 2025.

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