Novo conflito marca disputa por fazenda em Tamarana
Funcionários relatam tiros e expulsão após desentendimento com indígenas; PM diz que ninguém ficou ferido
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 05 de março de 2026
Funcionários relatam tiros e expulsão após desentendimento com indígenas; PM diz que ninguém ficou ferido

Em um conflito que já perdura por anos, funcionários de uma fazenda de Tamarana e indígenas que reivindicam a propriedade protagonizaram um novo desentendimento na área rural na noite desta quarta-feira (4).
O comandante do 5° BPM, o tenente-coronel Ricardo Eguedis, explica que a polícia recebeu um chamado por volta das 20h, que indicava que 80 indígenas estariam invadindo uma fazenda de Tamarana, que já é alvo de discussões há anos sobre a propriedade do terreno. "Existe uma negociação em que os proprietários continuam trabalhando em parte da propriedade e os indígenas também ocupam outra área, discutindo de maneira judicial a posse", explica.
Na propriedade, há duas casas conjugadas, em que dois funcionários da fazenda moravam. Há algum tempo, um dos funcionários se mudou do local e a casa permaneceu vazia. Com isso, há cerca de 30 dias, segundo o comandante, a casa foi invadida por um grupo de indígenas com a justificativa de que eles precisavam de um local para utilizar como sala de aula para as crianças.
Apesar do desconforto, Eguedis afirma que os funcionários e os indígenas mantinham tudo funcionando dentro de uma certa normalidade, mesmo com a tensão envolvendo a propriedade do terreno.
Disparos de arma de fogo
Entretanto, um desentendimento entre um dos funcionários e um indígena ocasionou um conflito. "Nós temos informações de que foram dados disparos de arma de fogo nesse momento", aponta, citando também o apedrejamento do imóvel e de carros.
No local, estavam 10 pessoas, sendo cinco funcionários e o restante famíliares de um dos trabalhadores, incluindo crianças de colo. Por conta do conflito, eles teriam sido expulsos do local, mas conseguiram fugir às pressas e foram acolhidos por um vizinho. A informação inicial é de que ninguém se feriu.
O comandante explica que por conta do horário e da possibilidade de confronto por parte dos indígenas, que estariam com armas de fogo e com armas indígenas, conforme a informação recebida pela polícia, a decisão foi de retirar as equipes do local e retomar as tratativas nesta quinta-feira (5) para restabelecer o convívio pacífico entre as partes. A Polícia Federal também participou da ação.
Nesta quinta, policiais militares do 5° BPM (Batalhão da Polícia Militar) voltaram à fazenda para ouvir os indígenas e um novo boletim de ocorrência, lavrado após o patrulhamento ostensivo preventivo nas imediações da propriedade, trouxe novos detalhes ao ocorrido. A equipe conversou com lideranças da Aldeia Apucaraninha no local, os senhores Anilton, Israel e Jeremias, que relataram que por volta das 17h de quarta, quatro seguranças do imóvel teriam retirado um cadeado que se encontrava na porta de um ambiente que havia sido ocupado pelos indígenas cerca de 30 dias atrás, sendo utilizado como sala de aula para crianças.
As lideranças teriam sido acionadas a partir do descontentamento da comunidade com a ação, com aproximadamente 80 indígenas se deslocando ao espaço. Os homens informaram que, durante as discussões que se seguiram, “um dos seguranças efetuou um disparo de arma de fogo, não sabendo, contudo, identificar qual deles realizou o disparo. Relataram ainda que houve utilização de gás lacrimogêneo contra mulheres e crianças, também por parte dos seguranças, e diante do clima hostil que se formou no local, três dos seguranças teriam se evadido utilizando veículos”.
Quanto ao caseiro e sua família, foi confirmado que se evadiram pela mata junto de um quarto trabalhador. Os indígenas relataram não haver feridos, mas alguns teriam passado mal em razão da exposição ao gás lacrimogêneo. As duas residências dos caseiros tiveram vidraças quebradas, “não havendo intenção, por parte da comunidade indígena, de retirar quaisquer pertences existentes no local”, descreve o documento. As lideranças também se comprometeram com a preservação e guarda dos maquinários da fazenda, guardados em um barracão fechado.
Além dos policiais militares, estiveram presentes no imóvel representantes da Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas), que realizaram uma videoconferência com órgãos públicos federais para relatar a ocorrência.
Leia mais:
Invasão das salas de aula
Ivan Rodrigues, da Terra Indígena do Apucaraninha, afirma que os indígenas que estavam no local, em sua maioria mulheres e crianças, revidaram quando os funcionários da fazenda invadiram o espaço, que vem funcionando como uma sala de aula, para retirar as carteiras.
Ele garante que a fazenda é, por direito, de propriedade dos indígenas. Além disso, afirma que os funcionários, que atuam como seguranças, estão no local apenas para intimidar o grupo de cerca de 40 famílias que estão alocadas na área de retomada até uma definição da Justiça.
Procurado pela reportagem, Marcos Cavalheiro, chefe da Unidade Técnica da Funai em Londrina, disse que a fundação vem buscando informações para entender o que teria originado o conflito. Em relação à disputa judicial pela área, ele explica que são processos em andamento: o de reintegração de posse e o de revisão dos limites da propriedade. “Infelizmente a Justiça é um pouco lenta, então a gente espera que com esses problemas que têm ocorrido eles tenham um pouco mais de celeridade para tentar evitar que aconteça um mal maior”, afirma. (colaborou Heloísa Gonçalves)
*matéria atualizada às 19h30


Jéssica Sabbadini
Repórter com atuação na cobertura local.




