Com previsão de término até o dia 26 deste mês, a primeira etapa da reforma do Calçadão de Londrina continua dividindo opiniões. Enquanto os responsáveis pelo projeto defendem que a substituição do petit pavé (piso em pedras, formando um grande mosaico) pelo paver (blocos de concreto intertravados) vai transformá-lo em modelo de mobilidade urbana, parte da população, arquitetos e urbanistas destacam a perda da identidade do espaço e a pobreza, em termos arquitetônicos, do material. As outras etapas da obra ainda não têm data para começar. Dependem, segundo a Secretaria Municipal de Obras, da captação de recursos e da resolução de problemas como a retirada dos quiosques.
A reforma começou em novembro e teve o cronograma atrasado em razão das chuvas. No início desta semana, quase todo o miolo do trecho entre as ruas Pernambuco e Prefeito Hugo Cabral ainda estava por fazer. Além do novo piso, a área deve receber chafariz, novos bancos, luminárias, floreiras e reposição de árvores. Os outros trechos da via, até o início da Rua Maranhão, são os mais complicados, segundo o secretário municipal de Obras e Pavimentação, Marcelo Teodoro. Além da presença dos quiosques, são trechos de maior fluxo de pessoas e de maior extensão. Nos próximos dias deve ser aberta a licitação para as obras da 2 etapa (entre as ruas Pernambuco e João Cândido).
Segundo Teodoro, o paver é um piso com melhor permeabilidade e está sendo usado em cidades do mundo inteiro, além de também permitir que sejam feitos desenhos. ''Para dar mais vida ao novo pavimento, optamos por intercalar tijolos nas cores vermelha e amarela junto do cinza, mantendo os elos que caracterizam o petit pavé. É uma homenagem à miscigenação de raças presente em nossa população: o vermelho representa a cor da terra, o amarelo remete aos japoneses e o cinza, a população europeia'', descreve o secretário.
Acessibilidade
Ele reconhece a beleza do petit pavé, mas defende que, na prática, não é adequado para a situação. ''É um piso que dificulta o acesso de carrinhos de bebê, cadeirantes e mulheres de salto alto que trabalham na região. A manutenção também é mais complicada, assim como o escoamento da água pluvial'', afirma Teodoro. O secretário explica ainda que a reforma adequa o Calçadão à NBR 9050 - norma brasileira de acessibilidade, revisada em 2004, e ao manual de procedimentos para construção de calçadas em Londrina, que recomenda o uso de concreto semipolido vassourado e colocação de piso tátil.
''Se fosse para pensar só na beleza, talvez deixaríamos o petit pavé, mas temos que optar pela praticidade e atender à demanda de acessibilidade. Temos que ver quais são as necessidades da cidade e dos cidadãos'', diz o secretário de Obras.
Em uma consulta rápida a londrinenses que passam com frequência ou trabalham no local, não faltam críticas ao projeto. Para o comerciário Frutuoso Pires, ''o petit pavé é muito mais bonito, dá outra aparência''. O problema, segundo ele, é que desde o início as pedras foram mal colocadas, com uma base ruim. ''Mas a gente vê muitos outros lugares em que não acontecem os problemas que vemos aqui'', argumenta. Pires também não aprovou a calçada de concreto que margeia o paver. ''É horrível, simples demais.''
Dulcemar Freire, gerente de uma das lojas localizadas ao longo da via, também acha que um dos cartões postais da cidade merecia outro tipo de revestimento. ''É de um mau gosto tremendo'', avalia. Ela diz que está aguardando para ver se o projeto de paisagismo consegue ''disfarçar'' e trazer algum atrativo para o local. ''O mosaico em pedras é o diferencial do nosso calçadão. Com a mudança, vai ficar como uma calçada qualquer. É uma judiação'', opina.
Marca registrada
Para os arquitetos e urbanistas Cláudio Bravim e Eduardo Suzuki, do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) - Núcleo de Londrina, os problemas estruturais do Calçadão, como a dificuldade de escoamento da água pluvial, existem desde o início e poderiam ser corrigidos. ''Toda obra tem que sofrer ajustes, manutenção constantes, mas não retirar o que é a sua marca registrada. O valor histórico do que se está destruindo é inestimável. Aquela imagem do Calçadão que identifica Londrina em todo o mundo agora não mais existirá. Existirá uma mistura insensata de cores, sem harmonia, sem história, sem contexto, sem personalidade, sem beleza e que com certeza continuará com os mesmos problemas, que de longe não resistirá a mais 30 anos.'', argumentam.
Eles lembram que o desenho dos elos em branco e preto foi idealizado pelo arquiteto Hely Bretas há muitos anos. ''A ideia veio de Curitiba, mas não veio detalhada. Trata-se de um projeto que já começou mal. E agora, a sensação é de que estamos regredindo'', opina Suzuki.
Para os urbanistas a nova solução não foi debatida com profundidade com a comunidade, e sim imposta pela administração municipal. ''Esperava-se que a ideia fosse realizada numa única quadra para verificar sua eficiência e beleza. Mas pelo que tudo indica, e apesar de muitas críticas, a obra deve ser continuada em toda a extensão do Calçadão, infelizmente.''

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