Vila Reis, em Apucarana
Vila Reis, em Apucarana | Foto: Marcos Zanutto - Grupo Folha

Apucarana - A comerciante Lucinéia de Fátima Freitas mora há 30 anos na Vila Reis, um dos quatro distritos de Apucarana (Vale do Ivaí). Satisfeita com a vida que leva na localidade, conhece diversas pessoas que deixaram o povoado nos últimos anos por motivos diversos. “Aqui é difícil, um pouco longe. Têm muitos que se mudam para bairros na cidade, ganham casas em outros lugares pelo Minha Casa, Minha Vida (programa do governo federal)”, relata. A Vila Reis está entre os 93 distritos no Estado que perderam população ao longo de três décadas.

O levantamento é resultado do projeto de pesquisa "Esvaziamento populacional nas cidades paranaenses", do departamento de arquitetura e urbanismo do CTU (Centro de Tecnologia e Urbanismo), da UEL (Universidade Estadual de Londrina). Coordenada pelo professor aposentado da instituição, Nestor Razente, a averiguação durou cerca de dois anos e meio e contou com o apoio de uma equipe de sete alunos ao longo deste período.

O mapeamento foi feito em todos os 399 municípios e 358 distritos do Paraná, sobretudo, em 1991, 2000 e 2010, considerando apenas os números oficiais disponibilizados a partir do censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). A perda é de 66.943 habitantes entre 1991 e 2010, levando em conta moradores da parte urbana e rural dos distritos, que passou de 190.605 para 123.662.

Razente vem pesquisando sobre cidades fantasmas pelo mundo há vários anos, o que resultou no livro "Povoações abandonadas no Brasil", publicado em 2016. Durante discussões, após a edição, surgiu a ideia de verificar a questão dos distritos rurais. “Depois do livro comecei a escrever sobre cidades abandonadas no deserto do Atacama. Neste intervalo, nas discussões com alunos e colegas, eles chamaram atenção para o fenômeno da população rural indo para a cidade. Então, surgiu o interesse de verificar o que estava acontecendo no Paraná”, explica. “Começamos a perceber que houve esvaziamento”, sinaliza. Durante a pesquisa houve desafios, como casos de distritos que viraram cidades ou trocaram de nome.

GENERALIZADO
De acordo com o docente, nos últimos 30 anos houve situações de povoados que variaram entre perda e ganho populacional entre uma década e outra. “Percebemos que alguns perderam população em 1991 e 2000, mas, ganharam um pouco em 2010. De só perder em três censos foram 93. Às vezes são cem pessoas, cinco, porém, existe um processo de diminuição”, destaca.

A pesquisa ainda demonstrou que este fenômeno não está restrito a uma região do Estado e sim de maneira generalizada, principalmente, no Oeste e Sudoeste. “Meu primeiro pensamento era de que teria acontecido somente onde passou a cafeicultura. Li alguns livros sobre o Norte do Paraná, entretanto, descobrimos que não era isso”, cita. Entre os distritos que mais perderam população em três décadas estão Nova Concórdia (Francisco Beltrão), São Luís (Chopinzinho) e Nova Lourdes (São João), que perderam, respectivamente, 6.609, 5.184 e 3.193 habitantes.

Imagem ilustrativa da imagem Noventa e três distritos perderam população no Paraná
| Foto: Folha Arte

"PUEBLOS"
Não foi registrada nenhuma perda populacional nos distritos de Londrina em três censos seguidos, assim como ruinismo no Estado. Razente ressalta que este processo notado no Paraná se repete em outros estados e até países, como o caso da Espanha, que perdeu muitos “pueblos” no mesmo período identificado, assim como no norte de Portugal. “Nestes dois casos o que está ocorrendo é que a população jovem está indo embora e quem fica são os idosos aposentados, porque não dependem do emprego, até que morrem ou acontecem outras questões.”

O urbanista e historiador afirma que os indícios mostram que este fator pode ser o mesmo que foi visto no Estado. A expectativa é pelo próximo censo do IBGE, programado para ser feito em 2020, quando a pesquisa será considerada finalizada. “Vamos confrontar para confirmar se este processo é aqui também. Existe uma 'tendência no ar' que é isso”, projeta. “A representatividade da população jovem vem caindo e a de idosos crescendo. As mulheres estão entrando no mercado de trabalho, os métodos anticonceptivos fazem com que as famílias tenham menos filhos”, analisa.

MENOS


Caita (São Mateus do Sul), Colônia Padre Paulo (Agudos do Sul), Coronel Firmino Martins (Clevelândia) e Cintra Pimentel (Nova Londrina), foram os povoados que menos perderam população, a partir dos pontos da pesquisa, sendo 85, 91, 95 e 99 moradores, respectivamente.

mockup