Jataizinho O pescador Antonio Sereia, 59 anos, teve sua rotina drasticamente alterada desde a implantação da novas regras de pesca profissional no Estado. Acostumado a passar o dia todo no rio, ele está há mais de duas semanas sem pegar na rede. O barco, geralmente carregado de peixe, fica ancorado perto de casa, quase sempre vazio. ''Estou com minha traia (sic) toda guardada, tive que parar para não ter mais prejuízo. Antes, dava para pegar até 10 quilos por dia, hoje, se tiver sorte, pega no máximo dois quilos'', lamentou o pescador, há mais de 13 anos na profissão. Quem vive da pesca na Bacia do Tibagi, passa pelos mesmos problemas. Mais de 60 pescadores, ligados à Associação de Pescadores de Jataizinho (21 km a leste de Londrina), reclamam que a proibição de alguns tipos de malhas está matando a pesca na região.
O pacote de alterações foi anunciado pelo Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Renováveis (Ibama) no dia 29 de junho, entrando em vigor 60 dias mais tarde. Preocupado com o avanço da pesca predatória nas bacias hidrográficas do Paraná, o Ibama decidiu banir a utilização de alguns equipamentos e malhas, entre elas a de sete centímetros de distância entre os vãos de tarrafa. Com a substituição, no trecho represado do rio, a pescaria em grande escala ficou permitida somente com malha oito ou de centimetragem superior. ''Com a sete, a gente pegava cascudo, mandi, dourado, e outros peixes, mas com a oito, nove e dez, que é tudo mesma coisa, não pega nada'', disse Sereia. Com a Instrução Normativa 36, o Ibama também proibiu o uso de equipamentos considerados predatórios, como a feiticeira e o espinhel.
A associação alega que o Ibama não deu tempo suficiente para os pescadores se adaptarem às novas regras, mais duras no combate à pesca predatória. ''Foi tudo muito rápido, eles poderiam ter dado um prazo maior pra gente. A malha sete, por exemplo, é a que dá o sustento para as famílias de pescadores. Foi tirada de repente e comprometeu a pesca no rio Tibagi'', argumentou o presidente da associação, Júlio Francisco Daniel, 65, já aposentado. Da nascente do rio, até a Represa de Capivara, trechos de água corrente, o Ibama adotou o uso da malha 14, em substituição à 12, medida que também provocou insatisfação do setor pesqueiro.
Diante de uma fiscalização mais dura, intransigente com a pesca desordenada, além de ficar com o equipamento de trabalho encalhado, o pescador vem contabilizando prejuízos com a baixa rentabilidade do negócio. Tem pescador que calcula uma queda de mais de 50%. ''O pior desta história é que a situação só tende a piorar. Com malha sete a gente não pega nada, se for trocar de equipamento, tem que gastar mais de R$ 2 mil. E o que a gente vai fazer com a traia antiga que ficou proibida?'', questionou Antonio Sereia.
Não bastasse o prejuízo no bolso, os pescadores também acusam os órgãos de fiscalização ambiental de conivência com a pesca amadora, principalmente aquela praticada em embarcações de alto poder aquisitivo. ''Por aqui, a pesca predatória é praticada só por gente rica. Tem um tubarão, do lado de cima da ponte, que paga outras pessoas para colocar rede no rio'', relatou o presidente. ''Deveriam ficar mais atentos com empresas e pessoas que ficam poluindo o rio'', desabafou o pescador José Antonio Vieira, 54.

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