Passa a valer a partir de hoje a Lei 11.340, que trata da violência doméstica contra a mulher no Brasil. Batizada como ''Lei Maria da Penha'' - em homenagem a uma professora que durante 20 anos lutou por justiça contra o marido violento - ela impõe penas mais duras aos agressores, reconhece várias formas de violência e estabelece medidas de proteção às vítimas.
A legislação era aguardada com entusiasmo por movimentos feministas e mulheres vítimas de agressão, como a empregada doméstica Judith (nome fictício), 32 anos. Com a condição de ter a identidade preservada, esta londrinense relatou à Folha como foi o início e o desfecho de quase 20 anos de casamento marcados pela violência. Sua história se confunde com a de milhões de outras vítimas, cujo roteiro a nova lei pretende mudar.
Começo - ''Nós namoramos durante dois anos antes de nos casar, em 1988. Ele era trabalhador, amável. Começou a mudar depois que engravidei da nossa primeira filha. Ele dizia que não era o pai. Foi a mesma coisa quando vieram as outras duas crianças (hoje o filhos têm 10, 12 e 15 anos). A princípio era xingamento, agressão verbal. Depois, ele começou a quebrar coisas, me agredir com chutes, socos. Achei que pudesse melhorar, mas a violência foi só crescendo.''
Cenas - ''Ele não queria que eu trabalhasse, mas eu o contrariei porque era muito esforçada. Os ciúmes dele aumentaram. Me proibia de trabalhar em casa onde tinha homem e várias vezes foi à casa dos meus patrões fazer escândalo. Perdi vários serviços por causa dele, passei muita vergonha. Uma vez ele me encontrou no portão com nosso filho de dois anos no colo e, sem mais nem menos, me deu um soco. Achou que eu estava olhando para alguém.''
Denúncia - ''Durante muito tempo eu fiz de conta que a situação não era tão grave. Se você sofre esse tipo de violência e tem filhos, fica sem ter para onde correr. Ele ameaçava minha família, todos tinham medo de me acolher. Só quando não aguentava mais é que fui à delegacia. Não adiantou muito. Registrei uns dez boletins de ocorrência ao longo dos anos, mas ele só foi preso uma vez - e solto no dia seguinte. Nas audiências, aparecia todo bonzinho, dizia que ia mudar. Apesar de tudo, eu continuava com ele.''
Reação - ''Venci o medo com a ajuda do pessoal do CAM (Centro de Atendimento à Mulher, programa municipal). Um dia resolvi sair de casa. Ele não estava. Levei tudo que pude, peguei as crianças e não deixei nem um bilhete. O CAM me ofereceu a casa-abrigo para morar, mas eu não queria viver me escondendo. Arranjei um lugar e não escondi o endereço dele. Ele nunca mais tocou em mim, mas vive pedindo para a gente voltar. Não quero. Não tenho mais amor, nem ódio por ele. Não sobrou nada.''
Conselho - ''Eu diria para outras mulheres que sofrem o que sofri: não abaixem a cabeça. Hoje vejo que não precisava ter sentido tanto medo, apanhado tanto. Denunciem a partir do primeiro tapa, da primeira ofensa. Mostrem a eles que vocês podem vencer, se virar sozinhas. Os obstáculos é a mulher mesma que cria.''

Serviço:
Delegacia da Mulher - (43)3322-1633. Endereço: Rua Goiás, 287 (Centro). Atende de segunda a sexta, das 8h30 às 12h e das 14h às 18h.
Centro de Atendimento à Mulher (CAM) - (43)3378-0572. Endereço: Rua Sílvio Pegoraro, 251 (Jd Petrópolis). Atende de segunda a sexta, das 8h às 17h30.

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