''Nova condição me fez viver duas vidas em uma só''
Nova condição
me fez viver duas
vidas em uma só
Além da explicação científica, Rosa, 28 anos, possui uma outra, espiritualista, para definir sua peculiar condição. Acredita que por questões cármicas uma punição, talvez foi aprisionada, não numa cela, mas em um corpo. Diz, no entanto, que depois do último final de semana, foi liberta. Estava me sentindo uma presidiária, mas agora estou sendo solta. Recebi meu habeas-corpus e estou indo embora, sorri, tomando emprestado uma expressão jurídica que significa, em latim, que tenhas teu corpo. Se existe reencarnação, eu sou um dos poucos seres humanos que teve a oportunidade de viver duas vidas numa só, completa.
Rosa (o nome é fictício) é um dos três transexuais masculinos, além de um feminino, que passaram pela cirurgia plástica, no último final de semana, para redesignação sexual. Essa é a expressão recomendada pelos clínicos, em lugar de mudança de sexo, mesmo porque os pacientes afirmam não sentir que estão mudando o seu sexo, apenas adaptando seus órgãos sexuais ao que eles realmente são. Desde criancinha, sempre me senti uma garota. Gostava de brincar com bonecas e me vestir com roupas de menina, revela Rosa.
O contentamento que ela demonstra é visível. Mesmo convalescendo da cirurgia, e ainda caminhando com dificuldade, dispôs-se a ser transportada até a clínica de sexologia da Universidade Tuiuti para falar com a Folha Rosa foi o único dos pacientes que aceitou dar entrevista , sempre com bom humor. O primeiro contato com o espelho foi de satisfação. Achei lindinha, resume.
Rosa namora um rapaz há três anos, mas ele não sabe de sua condição sexual, nem soube da cirurgia. Pensa que ela está viajando. Da cirurgia, só quem soube foi sua família, com a qual mora até hoje. Ela não tem emprego fixo e teve de abandonar a escola na 4ª série, pois é muito difícil frequentar aulas ou conseguir trabalho tendo um nome masculino (o nome que consta em seu registro é Luís), mas parecendo e se comportando como mulher.
Para a maioria das pessoas, eliminar os órgãos genitais e transformá-los em órgãos do sexo oposto pode parecer um dos piores pesadelos. Para Rosa, foi um sonho desejado e que pode lançá-la numa vida totalmente nova. Seus planos futuros incluem faculdades, casamento e adoção de filhos.
Mesmo com todo o otimismo, Rosa ainda terá de superar alguns obstáculos até ser plenamente reconhecida como mulher. Ainda não existe no Brasil uma lei que possibilite a mudança jurídica do gênero sexual com o qual uma pessoa foi registrada. Assim, Rosa ainda continuará com o nome de Luís em seus documentos.
Para burlar a situação vexatória, ela afirma que deixou de usar documentos e sempre dava um jeito de dizer que os perdeu. Essa é uma das questões que mais a incomodavam.
Para quem leva uma vida normal, Rosa dá um recado: Existe um ditado dos índios americanos que diz você só pode julgar seu vizinho se andar com os mocassins dele. Não recriminem, porque ninguém está livre de ter um filho ou uma filha na mesma situação.





