Notificações de leishmaniose crescem 60% no PR
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quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Antoniele Luciano<br>Reportagem Local 
No início, a alergia na perna do auxiliar de marcenaria Roberto Gomes da Silva, de 56 anos, mais lembrava uma mordida de borrachudo, um problema com o qual não se deveria preocupar. O que o morador do Conjunto Lindoia, na zona sul de Londrina, não esperava era que a área inflamasse e o diagnóstico de leishmaniose tegumentar, uma doença transmitida por inseto conhecido como flebotomíneo e que ataca a pele e as mucosas, se confirmasse.
Um ano depois, Silva ainda faz tratamento. "Precisei ficar um ano afastado e agora trabalho com a perna enfaixada. Já tomei 120 injeções e mais de 147 comprimidos de antibiótico para tratar", calcula ele, hoje nas estatísticas de leishmaniose no Paraná. Segundo dados da Secretaria de Estado de Saúde (Sesa), de 2010 a 2014, o número de notificações envolvendo a enfermidade aumentou 60%, passando de 194 para 311. Neste ano, até outubro, eram de 288 casos suspeitos.
De acordo com a chefe da Divisão de Doenças Transmitidas por Vetores da Sesa, Themis Buchmann, apesar de altos, os números não representam com fidelidade a realidade envolvendo a leishmaniose tegumentar no Estado. "Nem todos estes casos que entram no Sistema Nacional de Informações e Agravos (Sinam) são confirmados depois pelas unidades básicas de saúde. As fichas nem sempre mostram se houve tratamento depois. Se não houve, é porque não se confirmou o caso", diz. Nesta mistura entre casos reais e não confirmados no banco de dados, o que mais preocupa, avalia Themis, são os municípios onde não há nenhuma notificação. "Quem notifica muito pode ser que saiba realmente identificar a doença, mas e quem não notifica?", questiona.
Para a pesquisadora da área de parisitologia e biotecnologia Vanete Soccol, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o número de notificações serve de alerta para a atuação do poder público nestas comunidades. "São fatores para se prestar atenção. Os diagnósticos, de qualquer forma, precisam ser fechados. Os casos confirmados precisam de tratamento para evitar sequelas", comenta Vanete, ao observar que a leishmaniose tegumentar é considerada ainda uma doença negligenciada porque acomete pessoas de baixa renda e em países em desenvolvimento. "A indústria farmacêutica não tem interesse em pesquisar medicamentos. As drogas existentes possuem efeitos colaterais adversos", pontua.
No Paraná, neste ano, a maior incidência de notificações da doença ocorreu em São Tomé (87), Japurá (58) e Sarandi (47). Na área da 17ª Regional de Saúde, de Londrina, houve 21 notificações nove em Londrina, cinco em Ibiporã, duas em Tamarana, uma em Primeiro de Maio e uma em Rolândia. Em 2014, foram 32 notificações; em 2013, 28; e em 2010, 19. O crescimento das notificações na região, de 2010 a 2014, foi de 68%. No Brasil, os últimos dados divulgados no Sinam ainda são de 2013 e apontam 19.652 casos.
Hoje, a maior parte dos registros ainda ocorre em áreas rurais. Mas há também casos em regiões "periurbanas" (áreas localizadas além dos subúrbios das cidades), assinala Vanete. "Existem vários fatores socioculturais para essa ocorrência e a adaptação dos vetores em áreas periurbana ou também denominadas de ruro-urbana. Um deles é a intensa migração rural para zona urbana e outro fator poderia ser o trabalho de indivíduos que residem em cidades em zona rural. Nas áreas consideradas ruro-urbanas existem matas remanescentes ou matas secundárias onde pode haver adaptação de vetor e consequentemente transmissão", explica a professora. Ainda conforme ela, quando há construção de novos bairros, com derrubada de matas, pode haver aumento no número de casos. "Sempre há necessidade de se investigar quais foram as causas desses aumentos, pois geralmente estão ligados a fatores de mudanças ambientais", reforça.
Na opinião da pesquisadora, a eliminação da transmissão da doença é complexa, já que envolve vetores, reservatórios selvagens e meio ambiente fatores cujo controle é difícil. O mais importante, sugere, é que o serviço de saúde pública esteja organizado e que o diagnóstico possa ser feito o mais rápido possível. "Também é importante acrescentar a pesquisa de riscos sobre leishmaniose na construção de novos bairros, usinas hidrelétricas, estradas, gasodutos, enfim, obras que impactem o meio ambiente."
Vanete alerta que, se não tratada adequadamente, a doença pode evoluir para a forma mucosa com lesões graves e, posteriormente, sequelas. Segundo a Sesa, neste ano, houve apenas uma confirmação de leishmaniose visceral em humanos, a forma da doença que acomete órgãos internos. O paciente é um policial militar, de 27 anos, morador de Foz do Iguaçu (Oeste).


