Notas frias eram usadas em fraude
Giovani Ferreira
A Polícia Federal descobriu um novo esquema de fraude envolvendo os terminais que controlam a entrada e a saída da soja no Porto de Paranaguá, no Litoral do Estado. Através de notas fiscais frias, emitidas por uma empresa cerealista do Rio Grande do Sul, que receberia o dinheiro, os integrantes da quadrilha que atuam no porto conseguiam comprovar a entrada de cargas de soja que nunca existiram.
Somente no terminal controlado pela Cooperativa Cotriguaçu, uma das que movimenta a maior parte da exportação agrícola no Porto de Paranaguá, a Polícia Federal comprovou que nos últimos dois meses o golpe chegou a aproximadamente R$ 900 mil em notas. De acordo com o delegado José Augusto Chueire, 110 notas frias atestam a entrada fantasma de 3,1 mil toneladas de soja no terminal da Cotriguaçu.
O esquema começou a ser descoberto com a prisão de três ex-funcionários da cooperativa. Adriano de Paula Carneiro, Erivando Rodrigues de Souza e Luciano Jurchaks, todos com 22 anos, estão sendo acusados de cúmplices do golpe. Junto com eles os investigadores encontraram R$ 40 mil em dinheiro, que estavam escondidos dentro de um aparelho de televisão, R$ 25 mil em uma conta bancária e mais um carro e uma moto. Quando trabalhavam na Cotriguaçu, os três tinham um salário médio de R$ 200,00.
Em depoimento na Polícia Federal os três confessaram a participação no esquema, apontando como o mentor de toda a fraude o empresário James Feldmann, um dos proprietários da cerealista Agrofeld, do município de Erechim, no Rio Grande do Sul. Feldmann teria um contato que repassava as notas frias, que na sequência eram legalizadas de forma fraudulenta dentro da empresa.
Todas as adulterações aconteciam no setor que registra a entrada do produto no terminal. Interferindo no sistema de informática da empresa, os fraudadores conseguiam registrar o peso de uma carga fictícia, sem que o caminhão carregado com a soja estivesse na balança. Assim eles conseguiam imprimir o código de barras, que libera e comprova a entrada do produto no terminal.
A maioria das notas tinha um valor médio entre R$ 6 mil e R$ 7 mil. Em algumas os fraudadores chegavam ao absurdo de especificar que 30 toneladas de soja tinham sido descarregadas no terminal por moto. Segundo o delegado, 25% do valor da nota ficava com os ex-funcionários que participaram do golpe, outros 25% com o proprietário da Agrofeld e os 50% a Polícia Federal ainda não sabe qual era o destino.
Na última quinta-feira, o delegado Chueire chegou a ouvir James Feldeman, que foi liberado logo em seguida por ter negado qualquer envolvimento no esquema e também por não haver indício que apontasse a sua participação. Segundo Chueire, o empresário foi ouvido antes da polícia colher o depoimento dos ex-funcionários da Cotriguaçu, que o denunciaram como sendo um dos mentores do golpe.
De acordo com Chueire, a Polícia Federal está apenas no início da elucidação de uma grande fraude, que aponta para o envolvimento de muitas outras pessoas. A partir dos três elementos que confessaram a participação no esquema, a polícia pretende chegar às pessoas que estão no comando da operação e que ficam realmente com a maior parte do dinheiro.
Os três ex-funcionários da Cotriguaçu foram enquadrados em crime de formação de quadrilha e contrabando ou descaminho. Como não foram presos em flagrante e estão colaborando com as investigações, eles vão responder em liberdade. O empresário James Feldmann, que está sendo procurado pela polícia, também irá responder pelos mesmos crimes.
A Polícia Federal pretende agora iniciar uma investigação nos outros nove terminais de embarque de grãos existentes no Porto de Paranaguá.Ex-funcionários da cooperativa Cotriguaçu conseguiam comprovar a entrada de cargas de soja que não existiam
José SuassunaEsquemaAs adulterações aconteciam no setor que registra a entrada da soja no terminal. Fraudadores conseguiam registrar o peso da carga sem que o caminhão carregado estivesse na balança





