Não é por puro espetáculo que programas de televisão em que especialistas ensinam casais a educar os filhos - o Brasil acaba de ganhar uma franquia da atração - têm feito tanto sucesso. Os pais nunca estiveram tão inseguros para lidar com crianças e adolescentes. A constatação é da psicóloga Maria Tereza Maldonado, que esteve em Londrina esta semana para lançar seu 26º livro, ''Cá Entre Nós - Na Intimidade das Famílias'' (ed. Integrare).
Com 35 anos de prática clínica, palestras e participação em projetos sociais, Maria Tereza conseguiu traçar um painel do cotidiano e das relações das famílias brasileiras. ''Os pais têm muito mais dúvidas hoje, porque o mundo está mudando numa velocidade assustadora. Eles enfrentam questões bem diferentes daquelas de 40 anos atrás'', afirma. Para ela, a família deixou de ser a única influência para ceder cada vez mais espaço aos amigos e à mídia. ''Os filhos navegam pela internet e são inundados com uma massa de informação que os pais não conseguem filtrar'', prossegue.
O controle fica ainda mais difícil diante do que a especialista define como um vácuo: ''De um lado, a mulher foi ampliando sua participação no mercado de trabalho e deixando de exercer sua função prioritária de cuidar dos filhos. De outro, o homem ainda está em transição no desenvolvimento de seu papel de cuidador''.
Se antigamente os pais se orgulhavam quando conseguiam proporcionar estudos aos filhos, hoje muitos se sentem realizados por poder oferecer internet, TV a cabo e jogos eletrônicos. ''Nossas casas se transformaram em centros de entretenimento'', critica a psicóloga. ''Isso tornou mais difícil o equilíbrio entre prazeres e deveres. Muitos adultos também estão com essa dificuldade. A atração do entretenimento é muito forte.''
Como consequência da oferta irrestrita de diversão, os jovens ficam sem noção de tarefas e incapazes de desenvolver habilidades. ''As famílias precisam criar acordos muitos claros com relação à exposição dos filhos (ao entretenimento), definindo limites de tempo para usar o computador e assistir à tevê, por exemplo'', recomenda. O problema é que atualmente os pais morrem de medo de dizer ''não''. Mas será que esse advérbio é tão prejudicial assim?
''Não existe nenhuma teoria séria da psicologia que diga que o filho vai ficar traumatizado com um 'não'. Mas essa noção se popularizou. Muitos pais ficaram achando que dizer 'não' deixaria o filho frustrado, e que isso não seria bom para o desenvolvimento dele'', diz. Ao contrário. Maria Tereza garante que a colocação do limite e da frustração é um ingrediente indispensável para que o filho evolua. ''A criança vive na lei do desejo: quero agora, quero do meu jeito. Ela precisa aprender a viver na lei da realidade, saber que nem tudo acontece como a gente quer, que se uma coisa não é possível, há outra que é'', ensina.
Ao contrário do que pode parecer, nem tudo piorou na educação dos filhos. Entre os grandes benefícios que vieram com a modernidade, a psicóloga ressalta ''um respeito maior pela pessoa da criança e um canal mais aberto de conversa, em que as crianças têm mais liberdade de expressão''. ''Isso propicia melhores oportunidades para que as gerações possam trocar conhecimentos, olhares, visões de mundo'', conclui.

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