NOSSA CIDADE
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quarta-feira, 05 de fevereiro de 2003
Luka Morais<br>Reportagem Local 
Morte com razão
''Mulher quando mata sempre tem razão''. O comentário feito pelo dono da mercearia do bairro, soou estranho aos ouvidos de Cleuza, que gastava os últimos trocados do mês. Seo Orlando, o dono do mercadinho, abusava do preço, aproveitando que a maior parte dos moradores do local comprava fiado.
Cleuza escolhia alguns tomates e ovos para o almoço do marido e das três crianças. Com a falta de indicação do preço das mercadorias, ela tinha a sensação de uma arma apontada para sua cabeça. O ''assalto'' se consumava na hora de pagar a compra.
Enquanto escolhia os ovos, ela ouvia o comentário que seo Orlando fazia com uma outra compradora. A mulher de lenço na cabeça e chinelo de dedo mantinha nas mãos a caderneta que denunciava a compra sem dinheiro. ''A senhora não ficou sabendo? A mulher esperou o marido chegar em casa bêbado e sentou o machado na cabeça dele. Foi morte na hora. A sorte é que as crianças estavam na casa da avó'', comentou o comerciante.
Cleuza separava os tomates e o homem espichava a história, detalhando a situação em que ficou o cômodo onde dormia o casal e as quatro crianças. Antenada na conversa, a dona de casa acabou apertando a fruta que, de tão madura, se despedaçou. Com os dedos vermelhos com a polpa e as sementes, Cleuza não conseguia deixar de prestar atenção e imaginar a cena do crime.
''E a mulher que só esperou o marido chegar em casa para jogar água fervendo no cara que era mulherengo. Dizem que traía a mulher e ainda batia nela e nos filhos'', emendou outra freguesa. ''Se fosse só mulherengo, tudo bem, mas meter a mão na mulher depois de ter aprontado com outra é demais'', comentou a mulher do comerciante.
Cleuza, que já não aguentava mais a conversa, decidiu se manifestar. Primeiro pigarreou, olhando para o relógio. Depois mostrou o dinheiro e a compra para o dono do mercado. Ao ver a freguesa apressada, seo Orlando decidiu provocá-la. ''Dizem que a mulher ainda arrancou o danado do marido e fez feijoada''. E emendou: ''O pior é que a amante ficou sabendo da tal feijoada e comentou na missa de sétimo dia que também tinha direito ao prato...''
O comentário foi a gota d'água para Cleuza. Num impulso ela jogou os ovos no chão e esfregou os tomates no balcão. ''Tem homem que merece que façam omelete com aquilo que ele tem no meio das pernas. E que peguem seus miolos e os esmaguem feito tomates'', disse, fuzilando o comerciante com o olhar. Assustado, seo Orlando não perdeu a oportunidade para fazer um último comentário: ''Não disse que mulher, quando mata, sempre tem razão?''


