É preciso fazer um esforço danado para encontrar por aí uma criança que ainda brinca de pique, bola queimada ou esconde-esconde, como antigamente. É mais fácil dar com alguém de calça curta que nos pergunte ''o que é isso?'' - uma boa oportunidade para esquecer que já é adulto e ensinar as brincadeiras. Porém, antes que a busca termine sem sucesso, é bom saber que garotos e garotas londrinenses, que se vestem apropriadamente para a idade e sabem pular amarelinha, vivem o seu pequeno mundo em um orfanato. Lugar que, ao contrário do que muitos acreditam, também tem espaço para ser feliz e aprender como é bom ser criança.
Contraditoriamente, essa felicidade entra pela mesma porta que a do abandono dos pais. Mas, como o Dia das Crianças não é data para coisas tristes, a alegria em orfanatos conta com a colaboração de voluntários que realizam festas, dão presentes, enfim, algo que Karen (todas as crianças serão identificadas apenas pelo primeiro nome), 15 anos, sabe muito bem o que é:
''Amor, paz, carinho. Isso a gente tem aqui, mas eu gostaria de ter mais se pudesse fazer um pedido'', diz a adolescente, que ainda mostra o sorriso tímido de criança. Karen não conhece os pais, vive desde bebê no orfanato.
A ingenuidade com que afirma gostar de pular corda aparece também no desejo de fazer faculdade de manicure.
No Lar Anália Franco, fundado em 1957, as 73 crianças e adolescentes, que atualmente estão distribuídos nas cinco casas-lares, e os 157 externos, estudam e fazem oficinas profissionalizantes, inclusive de informática.
O mundo virtual que invadiu a rotina infantil ainda não é o principal companheiro das crianças do lugar, como Dimas, quatro anos de idade, deixado pela mãe com outros quatro irmãos.
A campanhia do garoto é uma serpente imaginária, que desenhou numa folha de papel. ''Vou fazer oito anos dia 13 de outubro'', conta Gabriel, acrescentando que o pai não costuma visitá-lo nem ao irmão de 10 anos, que também mora no orfanato. A mãe mantém consigo outros três filhos, visitando os dois internos de vez em quando.
''Antes, à noite, eu chorava de saudade. Agora não choro mais'', conta o garoto, que esquece a tristeza para falar das brincadeiras no lar, sonhando com uma guitarra de brinquedo, como presente no Dia das Crianças.
É comum encontrar irmãos no orfanto, havendo casos de uma família de até sete pessoas internadas e que, aos poucos, vão se separando ao serem adotadas ou para morar com algum familiar.
Kethlyn, 10 anos, também tem uma irmã no lar. Faz quatro anos que as duas são internas, desde que a mãe morreu. A garota põe a mão na cabeça e pensa longamente para dizer o que espera no Dia das Crianças.
''Não estou esperando nada'', diz a menina, esquecendo a festa que um grupo de voluntários faria na tarde de sexta-feira, com distribuição de doces. Mas, e o presente?
Um sorriso, um olhar espichado e pidão para uma voluntária traduz a certeza que o mimo virá. Presente que para a garota será tão divertido quanto brincar de bola queimada - uma de suas diversões preferidas.
Reinaldo, 12 anos, sentou ao volante de uma kombi da instituição, posando para a fotografia da reportagem, como se estivesse realmente realizando o sonho de ser piloto de uma Ferrari. Por enquanto, se diverte jogando futebol, com o amigo de todas as horas, Bruno.
Cinéfilo, Reinaldo tem uma lista enorme de filmes que já assistiu e outros que espera poder ver. Livros também fazem parte do seu cotidiano. Bem como escrever poesias.
O garoto quer ganhar brinquedo na data reservada às crianças, confiando na boa vontade dos voluntários. ''O dia das crianças é uma data em que a gente pode brincar mas sem esquecer o dever de casa e receber muitos presentes'', afirma Reinaldo, que como os outros internos do orfanato ainda sabe que brincadeira não é sinônimo de ficar na frente do computador. É ter um esconderijo secreto para brincar de esconde-esconde, como se fazia antigamente.

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