Londrina

Marcos BorgesDepoimentosOs irmãos José e Orlando Amorin com o promotor Tavares: ‘Mandaram entrar na Kombi e nós entramos’O promotor de Defesa dos Direitos e Garantias Constitucionais, Paulo Tavares, encaminhou ontem à promotoria de Ribeirão do Pinhal (57 quilômetros a oeste de Jacarezinho) documentos dos hospitais e cópias dos depoimentos das cinco pessoas que foram ‘‘despejadas’’ em Londrina na última segunda-feira. Elas confirmaram, em depoimento prestado ontem pela manhã ao promotor, que foram trazidas por uma Kombi da prefeitura de Ribeirão do Pinhal e deixadas na porta de um bar localizado do centro.
‘‘Fomos despejados aqui como se fôssemos animais’’, comentou o lavrador Luiz Amorin, 46 anos. Ele e seu irmão Orlando, 42 anos, moram há dois anos em Ribeirão do Pinhal. Eles trabalham na lavoura e, no dia em que foram ‘‘convidados’’ a vir para Londrina, estavam tomando pinga perto de uma praça. Amorin precisa de tratamento na perna e pé esquerdo, que apresentam deformações devido ao inchaço. ‘‘Mandaram a gente entrar na Kombi e nós entramos.’’
Portador de hanseníase, Sebastião Pereira dos Santos, 51, disse que estava de passagem por Ribeirão do Pinhal, onde esperava conseguir da prefeitura passagem de ônibus para ir a Maringá. ‘‘Preciso de tratamento por causa do problema na pele’’, diz. A falta de tratamento já causou a perda dos dedos dos pés de Sebastião. Ele caminha com ajuda de muletas, tendo o apoio somente do calcanhar.
Sebastião contou que estava numa rua da cidade, quando passou a Kombi da prefeitura, onde estavam apenas o motorista e uma mulher. ‘‘Ela disse que eu vinha para Londrina ter tratamento. Quando chegou aqui, fomos despejados na rua. Fui enganado’’, diz Sebastião.
‘‘Foram fazendo uma catança. A Kombi veio apinhada de gente, uns dez, e ainda deixaram dois no meio do caminho’’, disse Luiz Carlos Amaral, 31 anos. Ele conta que estavam todos embriagados, bebendo na praça. ‘‘Quando vi eu já estava dentro da Kombi. E quando nos deixaram na porta de um bar achei que estava tudo certo.’’ Também foi deixado em Londrina o lavrador Valdir Ribeiro, 25 anos.
O promotor Paulo Tavares disse que manteve contato com a promotora de Ribeirão do Pinhal, Fábia Teixeira Fritecotto, e que ela se mostrou indignada com o fato. De posse do material, ela poderá solicitar a instauração de inquérito policial para apurar os responsáveis pelo crime de omissão de socorro, aos três homens que tiveram que ser encaminhados aos hospitais de Londrina, e também se houve crime de constrangimento ilegal.
Tavares considerou o despejo dos lavradores ‘‘um absurdo’’. Segundo disse, a vontade das pessoas deve prevalecer. ‘‘A cidadania é um direito constitucional. Eles têm o direito de ir e vir e de permanecer onde quiserem.’’ De acordo com o promotor, ao serem colocados numa Kombi e, sem explicação, trazidos para Londrina, tiveram seus direitos desrespeitados.
A coordenadora do Programa de Enfrentamento à Pobreza, da Secretaria de Ação Social de Londrina, Neusa Harumi Tiba, acompanhou os cinco homens até a promotoria. Ela disse que é comum o despejo de andarilhos na Cidade mas as andarilhos têm medo de denunciar. ‘‘Acham que vão sofrer represálias se tiverem que voltar às cidades de origem.’’
Neusa Tiba disse que estão sendo feitos contatos com os familiares dos lavradores para que possam ser encaminhados de volta. Ela destaca a necessidade das pessoas denunciarem esse tipo de ação, que desrespeita os direitos humanos. Os telefones para apresentar as denúncias são (043) 330-3502 e 321-5977.

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