Nome ruim nunca mais
Walter Ogama
De Londrina
O curto período de euforia do povo com Collor rendeu ao ex-presidente uma homenagem em bairro de Cambé: o Conjunto Collor de Mello, que hoje tem nome de estádio de futebol
Nem mansões e nem casebres, nada de anormal se enxerga entre as famílias que formam aquela comunidade. As 353 casas erguidas no tamanho original de 30 metros quadrados parecem simples e aconchegantes. Mesmo aquelas que já tiveram os seus tamanhos até triplicados como a que acolhe o presidente da associação do bairro Benedito Rodrigues Gomes, que a vizinhança chama de Dito Branco , conservam modéstia. Ou, como as pessoas que moram nelas: gente humilde, que não se nega a uma boa conversa.
O que faz daquela comunidade um destaque é meio subjetivo, pode ser político e tem contorno sociológico. De um jeito mais prático, para falar economizando teoria, é fruto de revolta mesmo. Como e por que? A história é longa. Tudo começou em 1989, na época da caça aos marajás. Enquanto uma construtora de Londrina começava a levantar as casas, Fernando Collor de Mello discursava prometendo austeridade. Eleito como o 41º presidente do Brasil naquele mesmo ano por cerca de 35 milhões de brasileiros, ele se tornou o mais jovem de todos os ocupantes do cargo, com 40 anos de idade.
Seu reinado, porém, durou pouco, mas foi tempo suficiente para a comunidade ser batizada como Conjunto Habitacional Collor de Mello. O caçador de marajás foi destituído do poder com o impeachment, no dia 29 de dezembro de 1992. Para o povo brasileiro, inclusive os que fizeram parte dos 35 milhões que o elegeram, a palavra mais forte, para traduzir de um jeito simples aquele impeachment, era corrupção, desvio de dinheiro do contribuinte para fins particulares.
Quando o Senado derrubou o presidente da República por 76 votos a 3, a população do bairro, localizado em Cambé nas proximidades do Conjunto Residencial Castelo Branco e do antigo Hospital Londrina , começou a se mexer. Os moradores também queriam derrubar o Collor de Mello do nome do bairro, tamanha era a revolta da população.
A luta durou cerca de dois anos, segundo lembra Antonio Mançan, que está entre os primeiros moradores do bairro e trava uma briga interminável para conseguir a sua aposentadoria. Ele conversa, em plena tarde de uma quarta-feira, em frente de uma espécie de centro comercial. Um bazar, um açougue, um sacolão, um supermercado e alguns outros pequenos estabelecimentos comerciais estão instalados no quarteirão.
Os interlocutores de Antonio Mançan são Marli Nogueira, uma cabeleireira; Luciana Rodrigues, responsável pelo sacolão, e Claudinei Dorigo, o proprietário do bazar. É horário de expediente comercial, mas muito raramente aparece um consumidor.
Agora, com o FHC (presidente Fernando Henrique Cardos), também está tudo bagunçado.
Fora o governo federal, parece que os moradores não têm muitas queixas. As reivindicações locais são possíveis de serem conseguidas, conforme o grupo interpreta. Um centro comunitário, por exemplo, é a pedida de Marli Nogueira, que na porta do salão de beleza deixa à mostra o enorme cartaz: Não trabalhamos com fiado. Favor não insistir.
E como ficou o bairro depois de concretizado o sonho dos moradores de banir, daquele lugar, o nome do ex-presidente cuja inegibilidade vence no ano 2000 e já anuncia sua volta para a política? Conjunto Habitacional Morumbi, esta é a atual denominação. Pergunte ao pioneiro Antonio Mançan ou ao seu vizinho Claudinei Dorigo o que esse nome tem a ver com a comunidade?
É uma homenagem ao estádio do São Paulo Futebol Clube, o Morumbi.
Depois caminhe pelo bairro e observe nas placas. A via principal se chama Avenida Paraná Esporte Clube. É nela que está localizado o pequeno centro comercial. Corinthianos, palmeirenses, santistas, botafoguenses e outros torcedores também são homenageados. O atual Conjunto Habitacional Morumbi é um bairro futebolístico, ao que parece, principalmente quando o assunto é o torcedor e a sua euforia pelo time do coração.
Há, entretanto, situações constrangedoras. Márcio José de Souza, 14 anos, é corinthiano de escalar o time na ponta da língua, mas mora na Rua Botafogo Futebol e Regatas. Vizinho de Márcio, o santista Aparecido Pereira dos Santos, 33 anos, também fornece ao entregador o endereço da Rua Botafogo quando faz compras no supermercado.
Aparecido, que por quatro anos foi vice-presidente da Associação de Moradores do bairro, informa que a escolhe do novo nome do bairro foi em assembléia da entidade, que decidiu pelo sorteio. Caiu o Morumbi.
Jorge Ozório da Silva, 39 anos, garante que não torce para nenhum time. Sócio com o irmão Albertino Ozório da Silva, 38 anos, de uma firma de reforma e fabricação de móveis, Jorge mantém na parede do estabelecimento as flâmulas desenhadas do Palmeiras, do Corinthians e do Santos. Albertino é palmeirense e não esconde a sua preferência, nem depois da derrota do time para o Gama, do Distrito Federal.
O Palmeiras ainda vai achar o seu caminho.
A esperança é verde, mas ele trabalha na Rua Santos Futebol Clube. Assim como o presidente da Associação dos Moradores, Benedito Rodrigues Gomes, o Dito Branco, santista que ocupa uma casa na Rua São Paulo Futebol Clube. Ele anuncia que já conseguiu terreno da Prefeitura de Cambé para a construção de um centro comunitário.
Queremos que seja ao lado do Caic, onde também funciona um posto de saúde.
Logo que assumiu a Associação de Moradores, Dito Branco conseguiu um médico de família para o bairro. Ele também é o presidente da horta comunitária e diz que está conseguindo conscientizar os moradores a não depositarem lixos e entulhos nos terrenos desocupados do conjunto.
Ele, que votou no Collor em 1989, diz que o eleitor vai pela fama do candidato. E garante, como também fazem Aparecido dos Santos, Jorge Ozório da Silva, Albertino Ozório da Silva, Marli Nogueira, Antonio Mançan, Claudinei Dorigo e Luciana Rodrigues, como se falassem todos juntos:
Se em vez de Morumbi a comunidade tivesse escolhido Fernando Henrique para ser o nome do bairro, a gente lutaria para mudar a denominação mais uma vez.
Detalhe: na papelada oficial, o Morumbi continua sendo Collor de Mello.
CONJUNTO MORUMBI
Onde fica:
Em Cambé (proximidades do antigo Hospital Londrina)
Número de casas: 353, segundo a Associação de Moradores
Peculiaridade: bairro com nome de estádio de futebol e ruas com nomes de times





