No Paraíso não tem água, luz, asfalto ou rede de esgoto. Ali impera a miséria e o desemprego, o lixo e a doença. Nestas condições, vive boa parte das quase 70 famílias que invadiram, ao longo de 16 anos, uma área que faz parte do Jardim Paraíso, na zona norte de Londrina, ao lado da linha férrea. A área ocupada acabou ganhando o nome de ‘‘Favela do Paraíso’’ - apesar do lugar não sugerir, nem de longe, o Éden revelado pela Bíblia. Os moradores não perdem a fé, é verdade, mas ainda vêem o futuro como um grande ponto de interrogação.
O caso da favela não é isolado. A contradição entre nome e condição do lugar é fato comum em vários bairros, assentamentos ou favelas de Londrina. Favela Colosso, Jardim União da Vitória, Cantinho do Céu, Santa Fé, Nossa Senhora da Paz, Novo Amparo e Favela do Ideal são alguns exemplos. Todos têm como pontos comuns a origem humilde (muitas vezes miserável) e o excesso de otimismo (ou esperança) manifestado na hora da escolha do nome.
Mário CésarTrabalho e lazerLaércio Couto, casado, quatro filhos, está desempregado e revende frutas com a bicicleta; nos dias de folga, passeia com a filha, Ana CarolineHoje um bairro estruturado - este ano fez festa para comemorar os 13 anos de existência -, o União da Vitória, na zona sul, é um caso exemplar. Começou como ocupação irregular, virou assentamento, e por muitos anos carregou nas costas o estigma de lugar mais pobre e violento da cidade. Mas o nome - União da Vitória - foi uma aposta dos moradores de que somente a soma da força das famílias do assentamento poderia mudar um destino quase certo. Apostaram, foram à luta e agora festejam a estruturação do bairro.
Ainda não é o caso dos moradores do Conjunto Nossa Senhora da Paz, antiga Favela da Caixa Econômica Federal - ou ‘‘Grilo da Caixa’’ -, que está registrado na prefeitura como Conjunto Habitacional Paranoá. O local foi ocupado há quase 30 anos, mas os moradores, na verdade, nunca tiveram muita paz. Em 1970, por exemplo, a polícia foi acionada para cumprir um mandado de reintegração de posse, em favor da CEF, contra as dezenas de famílias que se instalaram no local. Houve resistência e tumulto.
Depois do conflito, a prefeitura achou melhor declarar a área de utilidade pública e fez a desapropriação, o que permitiu posteriormente a doação para a Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld) e o assentamento das famílias. Dez anos depois, a favela já tinha virado conjunto habitacional, mas mantinha os problemas de falta de estrutura e segurança. E ainda era conhecido por todos ainda como ‘‘Favela da Caixa’’.
O assessor social da Cohab-Ld, Humberto de Lima, recorda que o nome ‘‘Nossa Senhora da Paz’’ surgiu por volta de 1990. Segundo alguns moradores, o objetivo era exorcizar de vez ‘‘o estigma de lugar pobre e violento’’. Até então, observa Lima, para fugir do preconceito, os moradores costumavam omitir o bairro de origem na hora de procurar serviço ou então citavam bairros vizinhos. Apesar do esforço em busca de nova imagem e das melhorias que o lugar recebeu, hoje muitos ainda o chamam simplesmente de Favela da Caixa e a violência - e, agora, incidência de drogas - continua presente.
Bem ao lado do Nossa Senhora da Paz surgiu outra ocupação, em 1975, com nome bastante sugestivo: Favela Colosso, onde ainda vivem amontoadas 69 famílias sem ligações de água e de luz. Alegando falta de condições técnicas para urbanizar a área, a Cohab chegou a transferir as famílias, em 1996, para o assentamento no bairro João Turquino (também conhecido como Olímpico 2), zona oeste. Mas assim que terminou a remoção, outras famílias - muitos parentes das primeiras - ocuparam novamente a área da favela, onde permanecem até hoje. A origem do nome é desconhecida.
O caso mais curioso, no entanto, é de uma favela instalada há mais de três décadas nos fundos do Jardim Paulista (zona norte). Formado inicialmente por pessoas de uma mesma família, nas margens do Ribeirão Quati, o lugar recebeu o poético nome de ‘‘Cantinho do Céu’’. ‘‘Isso aqui já foi mesmo muito bom, era o lugar mais gostoso de Londrina. Era favela, mas não tinha bagunça, não tinha droga, não tinha nada de ruim. Todo mundo era unido. O nome surgiu por causa disso. Depois as coisas foram mudando, mas o nome ficou’’, recorda dona Conceição Reis Rodrigues, 60 anos, metade da vida passada no Cantinho do Céu.
Viúva e mãe de 10 filhos, Dona Conceição lembra que até parte do sustento da família dava para tirar de atividade desenvolvida na própria favela: os moradores faziam sabão com o sebo que aparecia no Ribeirão Quati, despejado por um frigorífico que funcionava próximo. Trinta anos depois, a vizinhança de dona Conceição se diversificou - não exatamente para melhor - e o Ribeirão Quati está ainda mais poluído do que já era.
Apesar das transformações, dona Conceição - que vive rodeada dos filhos e dos netos, que também moram no lugar - prefere não reclamar. ‘‘Aqui tem água, tem luz, não tem briga, nem polícia. Só discussão em família, mas isso é normal’’, aponta. ‘‘Então está bom demais.’ Detalhe: sobre a pintura da casa, um azul claro, da cor do céu, dona Conceição jura por todos os santos que não foi nenhuma alusão ao nome do bairro. ‘‘Pura coincidência’’, garante.

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