Você está dirigindo, toca o celular e não há onde parar o carro. Você vê que é um telefonema da escola da sua filha e atende. É preciso buscá-la na escola porque ela não está passando bem. Preocupado, acelera um pouquinho mais. O semáforo fica amarelo, mas, quando você passa, já está no vermelho. Não há vagas na frente da escola, a menina já está lá esperando, então você pára em fila dupla rapidinho, só para ela subir.
Quem achar essas pequenas infrações de trânsito injustificáveis, e puder provar que nunca cometeu nenhuma delas, que atire a primeira pedra. Porque praticamente todo motorista, por um motivo ou outro, acaba desrespeitando a lei vez ou outra. Só que, por isso mesmo, todo motorista enfrenta diariamente um trânsito caótico, em que precisa desviar de carros parados em fila dupla, tomar cuidado com quem anda falando ao celular, em alta velocidade ou furando sinais vermelhos e preferenciais. E pouca gente relaciona isso aos próprios atos, ou considera que esteja infringindo a lei.
Segundo informações da Companhia de Trânsito, foram aplicadas 13.713 multas no perímetro urbano de Londrina em 2007. O trânsito na cidade fez 78 vítimas fatais no período, e deixou mais 2.982 pessoas feridas. No total, foram 5.896 acidentes, a grande maioria causada por falha humana. ''O abuso por parte do ser humano é que leva ao acidente e gera esses números absurdos'', afirma o sargento Edivaldo Lopes, encarregado pelo setor de acidentes da Companhia, complementando que tanto motoristas quanto pedestres cometem abusos. Vale lembrar que as pequenas infrações corriqueiras estão dentro da definição de abuso.
''O motoqueiro é o que mais atrapalha o trânsito, fica costurando, faz errado e quer ter razão'', comentou um motorista ouvido pela reportagem da FOLHA. Ele admitiu, porém, que costuma atender o celular enquanto dirige ''se o trânsito está tranquilo''. ''Se for pra parar em fila dupla rapidinho, só para deixar um companheiro, eu paro. Levo uma buzinadinha, mas não dá nada. A gente tem que ter paciência no trânsito'', alega.
Mais consciente, o administrador Valdenir Vítor considera que parar em fila dupla sem se preocupar com o outro é um desrespeito. Depois de uma experiência desagradável, Valdenir também passou a respeitar mais o sinal amarelo, e, hoje, pára diante de um - ao contrário de boa parte dos motoristas, que costuma acelerar. ''Já o telefone eu não posso deixar de atender. Trabalho com telecomunicações, e os clientes sempre me ligam no celular. Quando estou dirigindo, eu atendo e uso o fone de ouvido, e sempre que possível procuro estacionar'', revela.
Como pedestre, Graziele Aparecida Alves observa que ''os motoqueiros são muito loucos'', e muitos carros param em cima da faixa, o que dificulta a travessia. Mas a jovem assume que nem sempre atravessa a rua na área destinada aos pedestres. ''Às vezes eu não atravesso na faixa, mas só quando não vem vindo carro.'' Para Graziele, tudo o que deveria ser feito em relação às leis de trânsito já foi feito, e agora falta uma mudança de atitude das pessoas. ''Acho que as pessoas não mudam porque já se acostumaram, vão fazendo até que dê errado. Mas aí, quando um pára, outros dez começam'', avalia.
A falta de conscientização de motoristas e pedestres é o principal entrave do trânsito na opinião dos vendedores Edenaldo Estevam e Ramão Anilso Miranda. Estevam é um dos poucos motoristas que faz questão de respeitar todas as normas de trânsito, sem exceção. ''Para não dizer que não cometi nenhuma infração, já avancei no sinal amarelo, mas era à noite, e em um local em que eu tinha ampla visão das outras ruas'', admite. ''A gente tem família, não pode sair por aí dirigindo de qualquer jeito'', complementa Miranda.
Ambos dizem concordar com o projeto de lei que define o valor da multa baseado no valor do carro. ''Uma multa de R$120 para quem tem um carro de R$200 mil é indiferente, mas pesa muito para quem tem um de R$3 mil. Também concordo que se o motorista embriagado acaba matando alguém em um acidente isso seja considerado um crime'', opina Estevam. Para mudar a realidade do trânsito não só na cidade, mas em todo o País, os vendedores só vêem uma solução: aumentar o valor das multas. ''Tem que doer no bolso. O brasileiro só aprende assim.''
Se é por costume, falta de fiscalização, de multas mais pesadas ou de conscientização que as pessoas infringem as leis de trânsito, esse desrespeito é fato, e a qualidade do trânsito só vai melhorar à medida que essas pequenas infrações diárias deixarem de ser praticadas. ''As pessoas andam se matando no trânsito, mais parece suicídio'', define Estevam.

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