Esgueirando-se por entre o trânsito, o garoto branco estica as mãos pálidas em direção à janela do carro. Como num caça-níquel, uma moedinha cai por entre os dedos encardidos que rapidamente se encarregam de proteger a gorjeta. Na calçada, o garoto negro espera ansioso o retorno do colega. Vão comer? Dar de comer aos irmãos mais novos? Comprar o remédio que as avós carecem? Quase sempre não. O mais comum é esta mesma moedinha engordar os lucros do traficante mais próximo. Assim como em outras grandes cidades, em Londrina, meninos e meninas perdem a infância nos semáforos à espera da esmola dada por motoristas constrangidos pelo choque em preto e branco da realidade sobre a condição humana.
Os dois amigos pedintes passam dias e noites num dos pontos mais movimentados da Avenida 10 de Dezembro, bem à vista de quem passa. Só saem dali para consumir crack: são pelo menos 20 pedras por dia. Até o ponto de mendicância foi escolhido por ficar perto de uma ''boca''.
Sujo e esquelético, o menino loiro tem apenas 13 anos e já é um caco de gente. Os dentes apodrecidos, os lábios queimados pelas cachimbadas diárias em latinhas de metal e o olhar perdido castigam a alma de quem para no sinal vermelho. Quando a luz verde se acende, o reflexo de nossa própria desgraça se distancia até sumir do espelho retrovisor.
Entre lampejos de uma lucidez inconstante, o menino loiro conta que fuma crack há uns três anos. Era criança quando ganhou na rua o passaporte prematuro para sua primeira viagem ao inferno. ''Hoje só quero fumar crack'', diz agora sem culpa. Carcomido pela mistura explosiva da droga, o garoto fala da família como quem nunca teve pai, mãe, irmãos. O endereço que ele diz ser o dos parentes nem consta no mapa. ''Não gosto de ninguém. Eu gosto é da rua'', sentencia friamente.
O amigo negro hoje está com 18 anos, mas tinha 13 quando caiu na rua para nunca mais se levantar. Perdeu o emprego no Camelódromo, saiu da escola e fazia semanas que não via a avó, seu familiar mais próximo. ''Saí do segundo distrito um mês atrás. Furtei uma casa para comprar pedra'', fala.
O vício ele conta que adquiriu logo que abandonou os parentes. ''Deixei minha casa porque queria fumar crack'', sorri cínico, como quem tem certeza do que futuro que não terá. Na contabilidade atordoada do rapaz, torra pelos menos umas cinco gramas da droga por dia. ''Todo dinheiro que a gente pega no sinal a gente compra pedra'', admite, para logo em seguida emendar que fazia quatro dias e quatro noites que não dormia nem comia.
Na luta contra a vida, ele orgulha-se de ter ficado por três vezes frente a frente com a morte por causa de ''overdoses''. ''Agora eu tô de boa'', diz, encerrando a entrevista.
Os dois amigos se reaproximam, descem a rua e somem na esquina contando moedinhas. Não vão comprar comida, remédio nem esperança.

mockup