Brigar com a vida ou brigar pela vida? A resposta não vem de repente. Chega devagar, mansamente, e o que era revolta vai se transformando em esperança. É assim que tem ocorrido entre os participantes do projeto que apresentou o taekwondo aos moradores do Jardim Santa Fé, na Zona Leste de Londrina. Sem recursos, sem apoio oficial, sem estrutura adequada, quase sem nada, a iniciativa vai nocauteando as dificuldades e ensinando crianças, jovens e adultos a também conseguirem driblar o esquecimento e a falta de perspectivas futuras.
O tombo no piso duro, sem proteção, é dolorido, mas parece doer bem menos do que as adversidades que cada um dos quase 70 alunos precisam enfrentar todos os dias. Nas aulas que acontecem duas vezes por semana no salão paroquial do bairro todos sorriem, suam, lutam contra os próprios demônios. E saem dali mais firmes para encarar o que o mundo lá fora lhes oferece.
Idealizador do projeto, o taekwondista Vanderlei Vidotti, 35 anos, mais conhecido como ''Macarrão'', revela que a modalidade de arte marcial permite que os alunos levem os ensinamentos pela vida afora. ''O taekwondo prega cortesia, integridade, perseverança e espírito indomável'', assinala. Ele lembra que entre as crianças e os jovens, a única exigência para participar das aulas é que estejam estudando.
A academia comunitária, batizada de Equipe Westin Taekwondo Club, funcionou pela primeira vez há uns seis anos. No ano passado, as aulas foram interrompidas e retornaram há cerca de três meses com força total. Por causa da falta de estrutura adequada, crianças, jovens e adultos que treinam no Santa Fé enfrentam, quando caem, o piso duro e frio do salão. Mas tudo isso é nada diante da força de querer continuar. Tanto que Macarrão diz que os equipamentos seriam sim bem-vindos, mas lembra que a comunidade precisa mesmo é de cestas básicas, material escolar e, se possível, de uma festa de Natal.
O retorno do projeto, aliás, foi possível graças a um ex-aluno que decidiu devolver aos moradores do bairro o que aprendeu. Com apenas 21 anos, Claudemir Silva dos Santos assumiu voluntariamente as aulas e não se arrependeu. É querido como amigo e respeitado como professor. ''Foi uma oportunidade que eu tive e agora quero oferecer para eles também'', afirma o metalúrgico que já participou de competições estaduais e sonha em retomar a rotina de competições.
O pedreiro Róbson Gonçalves dos Santos, 33 anos, por exemplo, labuta oito horas por dia para garantir o sustento da família e duas noites por semana transforma-se em aluno da academia. Ele diz que o taekwondo transformou sua vida. ''Mudou tudo, meu comportamento, minha disciplina, e meu interesse pelas coisas'', fala o trabalhador, que levou a filha Gleice, 13 anos, para treinar com ele.
Pequeno ainda, Paulo Vinícius da Silva Verneck, 11 anos, garante que ''não é de briga''. ''Adoro aqui, porque é muito melhor do que ficar à noite na rua sem fazer nada'', diz. Quando o assunto é futuro, então, os olhos do menino brilham. Seu sonho é se tornar um lutador e, quem sabe, chegar a disputar uma Olimpíada como o seu grande ídolo Diogo Silva, que ele conhece apenas pela televisão.
Serviço - Quem puder ajudar a Academia Westin Taekwondo Club, do Jardim Santa Fé, pode entrar em contato com ''Macarrão'' pelo telefone (43) 9997-4854.

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