No Rio, tráfico ainda ganha de escola
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sábado, 16 de fevereiro de 2002
Murilo Fiuza de Melo Agência Estado 
O maior acesso ao ensino público não ajudou a retirar crianças e adolescentes de favelas no Rio do caminho do tráfico de drogas. A conclusão é de uma pesquisa inédita do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (IETS), encomendada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT), que ouviu 50 menores e jovens, entre 12 e 33 anos, de 12 comunidades carentes da cidade, empregados no mercado ilegal de entorpecentes.
Segundo André Urani, presidente do IETS, um dos motivos do abandono escolar é a percepção pelos entrevistados de que o grau de escolaridade não significa, automaticamente, retorno financeiro em futuro próximo. Eles sabem que a qualidade do ensino oferecido em uma escola pública não é a mesma que a de colégio particular. Muitas vezes, meninos de escolas privadas, com apenas o ensino fundamental completo, têm mais conhecimento do que garotos que concluíram o ensino médio numa unidade pública, acredita. É uma competição social muito desigual. A redução da idade de ingresso no tráfico também é fator preponderante no desestímulo.
Até a primeira metade dos anos 90, a aceitação de crianças não era uma estratégia comum aos traficantes cariocas, como reflete a resposta dos 10 maiores de 18 anos entrevistados pelo IETS. A maior parte (60%) começou a traficar entre 14 e 16 anos. A pesquisa mostra, porém, que essa realidade mudou, a partir de 1995. Dos 40 menores ouvidos, 45% disseram ter iniciado a vida na contravenção, com 13 ou 14 anos.
O que assusta, no entanto, é a participação de crianças ainda mais novas. Seis meninos contaram ter começado no tráfico aos 12 anos, cinco aos 11 e dois aos 10 anos. Houve ainda um garoto que revelou ter virado traficante aos 8 anos e outros dois, aos 9. O ingresso no tráfico dificulta, das mais variadas formas, a permanência na escola. Mesmo quando gosta da instituição, como declaram vários entrevistados, a rotina de trabalho e as atitudes exigidas na rede social do comércio de drogas impedem a permanência, afirmam os pesquisadores. Em outras palavras: o tráfico exige ação, movimento, disponibilidade de ficar ligado o tempo inteiro, enquanto a escola requer concentração, o cumprimento de tarefas ordenadas e sistemáticas atividades cognitivas difíceis até mesmo para alguns meninos das classes média e alta.
Os pesquisadores consideram que a mudança de atitude dos criminosos, com emprego cada vez maior de crianças, deve-se primeiramente ao custo menor em caso de prisão ou de extorsão da polícia. Nesse aspecto, a maioridade penal aos 18 anos cria o que se pode chamar de efeito perverso: a ação efetivada para resolver um problema termina por causar outro de igual complexidade.
O segundo motivo da contratação de mão-de-obra infanto-juvenil é a disponibilidade para o crime. Crianças e adolescentes são trabalhadores que não discutem as ordens de seu chefe. São mais destemidos em relação aos adultos e, por isso, atuam com mais disposição no enfrentamento com a polícia, diz Urani. Além disso, a reposição no mercado de trabalho, em caso de morte, é mais fácil. Há muitas crianças dispostas a ingressar no tráfico.


