No Rio, o destaque é paz e amor
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sábado, 24 de fevereiro de 2001
Agência Folha Do Rio de Janeiro 
Paz e Amor. O slogan hippie está presente no primeiro Carnaval carioca do novo milênio. E não apenas pelos lenços brancos que serão entregues aos que forem ao Sambódromo hoje. Os sambas de 13 das 14 escolas que desfilam pelo Grupo Especial no Sambódromo usam as palavras paz (nove vezes) e amor (treze). Apenas a Beija-Flor, que fecha o desfile de amanhã, destoa do Carnaval da paz, que será aberto por Elymar Santos cantando Bandeira Branca.
Ao contar a saga de uma rainha africana que nasceu em 1789, virou escrava e acabou no Brasil, a Beija-Flor não fala nem de paz, nem de amor em A Saga de Agotime. Maria Mineira Naê.
Com Paz e Harmonia, Mocidade é Alegria, a Mocidade Independente de Padre Miguel, quinta escola de amanhã, é a mais afinada com o tema. Vai homenagear Gandhi, Martin Luther King e Dalai-Lama e mostrar cenas de violência com o objetivo, segundo a escola, de impedir sua banalização.
O baterista do grupo O Rappa, Marcelo Yuka, que ficou paraplégico ao sofrer uma tentativa de assalto, será destaque no carro alegórico Casa Limpa, Alma Limpa, que mostraria cenas do sequestro do ônibus 174, no Rio, quando duas pessoas morreram. A Justiça vetou a exibição.
Uma das maiores curiosidades da Mocidade é a madrinha de bateria escolhida para ocupar o posto, vago há 14 anos. A morena Mônica Paulo, 33, já é avó. Nas letras dos sambas deste ano, a preferência é justamente por morenas, cantadas pelo Salgueiro e pela Caprichosos de Pilares.
Símbolo do Carnaval carioca, a mulata passa em branco. A palavra não é citada em nenhum samba. Também não há referências às loiras. Nem às geladas. A Imperatriz canta a cachaça e a Grande Rio cita o vinho.
Outros símbolos do Carnaval carioca também não aparecem nas letras. Apenas o samba da Mangueira fala em morro. E o próprio samba está restrito à Mangueira e ao Império Serrano que lembrou de citar o turista. Do sambista, todo mundo esqueceu. Mas o povo é cantado por oito escolas.
Ajuntamento de vogais costumam ser quase tão comuns nas letras de Carnaval quanto a ala de baianas na avenida. Este ano, não é diferente. A Tradição vem com iaiá, iaiá, oi. A Império Serrano fala de ioiô, iaiá.
Mas ô, ô, ô segue imbatível, preferido por três escolas. A Imperatriz não conseguiu fugir da rima com amor. A Beija-Flor preferiu nação nagô. Mas o que dizer da opção da Tradição por camelô? É que o empresário Silvio Santos é o homenageado da segunda escola a desfilar amanhã.
Sambas de Carnaval também são famosos por citar lugares e culturas exóticas. Este ano, não foi diferente. Há de Roma pagã, usado pela Grande Rio para falar do profeta Gentileza, a arte assíria, que inspira a Mangueira. Como estamos em 2001, há até uma citação a espaço sideral (olha a Grande Rio aí de novo).
Com o enredo Tijuca com Nelson Rodrigues pelo Buraco da Fechadura, a Unidos da Tijuca, terceira a entrar na avenida, contará a vida e obra do dramaturgo, autor de O Beijo no Asfalto e Toda Nudez será Castigada.
Com Romário e Ronaldinho Gaúcho, o Salgueiro, que desfila antes da Mocidade, vai levar para a avenida um mundo de águas representando o Pantanal com o enredo Salgueiro do Mar de Xarayés, É Pantanal, É Carnaval.


