Pai e mãe ao mesmo tempo. As histórias de famílias que têm sua rotina alterada pela separação dos pais ou pela ausência de um deles podem ser conhecidas em inúmeros e diversos endereços, mas nem sempre elas são contadas.
É comum descobrirmos mães que dão conta do lar sozinhas, trabalhando fora e assumindo as contas, sem descuidar da educação dos filhos. Porém, também tem muitos homens que encaram essa realidade. Como é o caso de Deusdete Domingues de Souza, que mora em Jataizinho (Norte). Aos 47 anos, ele deixou para trás o emprego em uma usina de cana-de-açúcar para cuidar dos três filhos.
Morando em uma pequena residência alugada na beira da BR-369, Souza sobrevive hoje com os filhos Mateus, de 8 anos, Pedrinho, 7, e Gabriele, 6, graças ao Bolsa-família e o benefício do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). Mateus está em tratamento de um tumor no estômago, o que lhe comprometeu o movimento das pernas e o tornou dependente de uma cadeira de rodas, há quatro anos.
''Não trabalho porque não tenho quem cuide deles. O Mateus precisa da minha ajuda a todo momento e também preciso cuidar da casa. Tenho que fazer tudo aquilo que uma mãe faz'', diz Souza, que viu a esposa abandonar o lar e as crianças quando o filha mais nova, Grasiele, de 5 anos, nasceu. ''Uma pessoa da família me ajuda a criá-la'', conta.
Souza e nem as crianças entendem o motivo do abandono da mãe, mas tiveram que aprender a cuidar um do outro. Todos os dias, às 7h30, o pai caminha 20 minutos a pé pela rodovia para levar as crianças até a escola. ''Tenho a obrigação de garantir o futuro deles e quero que eles sejam pessoas boas, de bom caráter'', ressalta.
Enquanto eles estudam, Souza deixa a casa limpa, lava as roupas e prepara o almoço até o horário de ir buscá-los. À tarde, a família toda acompanha Mateus nas sessões de fisioterapia na Unidade Básica de Saúde e, uma vez por mês, eles vêm até Londrina para a sessão de quimioterapia no Hospital Universitário.
Souza gasta praticamente todo o dinheiro que recebe em aluguel, contas de água, luz, gás, alimentação e nas 200 fraldas que Mateus usa mensalmente. Segundo ele, a esposa não quer saber dos filhos. ''Esses dias procurei um advogado para que ela comece a pagar pensão (alimentícia). Ela tem que assumir que os filhos também são dela'', lamenta Souza, ao assumir que não perde a esperança jamais. ''Cuidar de três crianças não é fácil, mas devagarzinho Deus vai ajudando. Recebo muita ajuda e isso me dá forças'', desabafa.
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Diálogo
Na família Gonçalves, a primeira visita ao ginecologista foi na companhia do pai Miguel, de 45 anos. Os passeios ao shopping para comprar roupas também foi uma tarefa assumida por ele, que criou as filhas Natally, de 18 anos e Marcelly, 20, desde quando elas tinham 8 e 10 anos.
''Quando me separei da mãe delas, só via as meninas aos finais de semana, pois saí de Wenceslau Braz (Norte Pioneiro) e mudei para Londrina. Elas moraram durante seis anos com a mãe, até que de repente ela decidiu ir morar em outro país'', comenta Miguel, autônomo.
As meninas contam que a notícia da mãe foi uma surpresa e dizem não se esquecer do dia em que Miguel foi buscá-las. ''Tivemos que aprender a conviver com meu pai. Quando me mudei, tive um certo receio por achar que ele seria bravo, rígido'', diz Marcelly, estudante de Biomedicina.
Mas, segundo Natally, isso nunca aconteceu. Em pouco tempo, elas descobriram todo o amor e dedicação do pai. ''Ele sempre manteve um diálogo aberto com a gente. Percebemos todo o esforço que ele teve para se adaptar à nossa rotina. Ele nos levava na escola, nas atividades extras e ainda passeava com a gente no shopping para comprar roupas'', conta.
Miguel diz que sempre contou com a ajuda da mãe Zoraide, mas que não deixou de cumprir seu papel. ''Você nunca pode fugir da responsabilidade. Tive receio por ter que criar duas meninas, mas não tive problemas. Dividimos os serviços de casa e tento ao máximo participar de tudo na vida delas'', argumenta.
Para as filhas que mantêm pouco contato com a mãe, o convívio com Miguel as ensinou que não existe o paradigma das diferenças entre pai e mãe. Para elas, ele é tudo isso e, ao mesmo tempo, amigo.

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