‘‘Aqui cada dia que passa está ficando mais desesperador. Porque a gente fica naquela agonia: um dia vamos sair daqui, outro dia não vamos mais... Está muito difícil’’, desabafou ontem a sem-teto Lourdes Moreira, que está alojada no Palácio do Futsal com mais três filhas e uma sobrinha. ‘‘E o pessoal disse que a gente ia ficar aqui apenas um dia e uma noite. Mas já se passaram oito dias e ainda não saímos.’’
Lourdes Moreira contou que os adultos e cerca de 18 crianças que ainda permanecem no local estão se alimentando graças a uma igreja da região - ela não soube identificar qual -, que tem mandado regularmente cestas com alimentos.
Ela lembrou também que as baixas temperaturas dos últimos três dias têm castigado a todos. ‘‘A gente faz como pode, pega uma coberta aqui, outra ali, e dá um jeito.’’
De qualquer forma, a sem-teto diz que é melhor ficar no ginásio - que é coberto, apesar das goteiras - do que passar a noite acampado na frente da Prefeitura, como ocorreu logo depois que foram despejados das casas de fibrocimento do conjunto Ilda Mandarino (zona norte). ‘‘Ainda bem que o presidente do ginásio está sendo camarada com a gente’’, informou.
Lourdes Moreira afirmou, no entanto, que a expectativa de ser transferida definitivamente para um terreno da zona sul é muito grande, apesar de saber que no começo viverá sob barraco de lona plástica. ‘‘Aqui está todo mundo desempregado. Então vai ser assim até não sei quando. Mas o importante é que ninguém vai mais jogar a gente fora’’, observou a sem-teto, lembrando que as famílias estão dispostas a pagar pelos lotes. ‘‘Pelo que a gente ficou sabendo, as prestações vão girar entre R$ 49 e R$ 50.’’
Enquanto aguardavam a mudança anunciada, as famílias acomodavam a mudança do jeito que podiam no ginásio. Geladeiras, aparelhos de televisão, camas, guarda-roupas, bicicletas, muitas malas e até animais de estimação dividiam espaço na quadra esportiva e também nas arquibancadas. ‘‘Acho que se der certo (a transferência para o jardim Cristal) vai ser uma boa solução, porque realmente está difícil continuar aqui’’, comentou Célia Silva de Oliveira, quatro filhos e grávida de nove meses.
(Lúcio Horta)

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