Os 2,6 mil índios da reserva de Rio das Cobras, no município de Nova Laranjeiras (Centro-Oeste), a maior do Paraná, travam luta permanente contra um inimigo implacável: a miséria.
Apenas os índios que produzem e vendem artesanato, às margens da BR-277, próxima à aldeia, conseguem alguma renda. Na reserva, de 18,6 mil hectares, há três tribos caingangues, mais dedicadas ao plantio de subsistência, e duas guaranis, voltadas à produção de objetos de vime.
O cacique é José Olíbio, 58 anos, ao qual são subordinados os chefes de cada tribo. Elas não se misturam, e os casamentos só ocorrem entre membros do mesmo grupo. Seis dos oito professores - de 1ª a 4ª séries - são índios. ‘‘Eles também não gostam quando são transferidos para outra tribo’’, relata a professora Mirtes Mioranza, da Secretaria Municipal de Educação.
Mirtes relata que, do contingente total, 950 índios (na maioria jovens) são alfabetizados, 400 são eleitores e 270 frequentam escolas, com currículo adaptado às condições e cultura indígenas. As aulas são em guarani nos dois primeiros anos, e depois uma vez por semana, para que a cultura linguística seja preservada.
Duas tribos, mais próximas à BR-277, têm no artesanato a principal fonte de renda - os objetos são oferecidos principalmente por mulheres e crianças, com grande insistência, para quem resolve parar no local. Esses grupos também têm apoio da Missão Cristianismo Decidido, de evangélicos. A Funai dispõe de poucos recursos e a prefeitura assumiu boa parte dos encargos com a assistência à saúde e educação. Diariamente, grupos de índios vão para Nova Laranjeiras, distante 10 quilômetros, mendigar e recolher restos jogados pelos ‘‘brancos’’.
É comum vê-los com sacos de estopa nas costas, nos quais carregam quinquilharias desprezadas pela população local. O cacique José Olíbio, pai de seis filhos, diz que o principal problema é mesmo ‘‘a parte agrícola, que faz parte da saúde’’, resultando em desnutrição e outros males. Olíbio tem sua definição para a desnutrição: ‘‘Criança já nasce com fome. Menina casa, e aí piora desnutrição. Tem filho, e filho nasce com mais fome’’.
Avá-Guarani Os 513 índios da etnia avá-guarani, que hoje vivem divididos em duas reservas no Extremo-Oeste do Estado, têm nas cestas básicas do programa federal de assistência Comunidade Solidária sua principal fonte de sustento. As lavouras que eles mantêm, a caça e a pesca nas áreas de preservação são insuficientes para alimentar o grupo.
Hoje, os avá-guarani tentam recompor sua cultura, depois de 15 anos de desintegração provocada pelo nomadismo forçado. Com a construção da Hidrelétrica de Itaipu, em 1982 os avá-guarani tiveram sua reserva de 1.700 hectares - à margem esquerda do Rio Paraná, no município de São Miguel do Iguaçu (45 km a nordeste de Foz do Iguaçu) - inundada pela formação do reservatório da usina.
Transferidos para uma área seis vezes menor, no mesmo município, os índios entraram num ciclo de fome e desintegração. Em junho de 1995, eles invadiram uma área de 600 hectares no Refúgio Biológico Bela Vista, reserva mantida pela Itaipu Binacional com o objetivo de preservar espécies animais e vegetais.
Apenas há exatos dois anos, em 18 de abril de 1997, os índios foram assentados em uma área definitiva, comprada pela Itaipu, no município de Diamante do Oeste (150 quilômetros ao norte de Foz do Iguaçu). A reserva, batizada pelos índios de Tekoha A¤etetê (‘‘aldeia verdadeira’’, na língua da tribo, o guarani), possui 1.744 hectares. Nesse local, vivem hoje 159 pessoas.
A maior parte do grupo - 354 índios - decidiu permanecer na reserva Ocoí-Jacutinga, em São Miguel do Iguaçu, que tem apenas 232 hectares. Com a escassez de recursos naturais, boa parte dos índios dessa reserva se transforma sazonalmente em bóia-fria nas lavouras de brancos.
Na reserva de Diamante do Oeste, a falta de saneamento ameaça a saúde dos índios. Análises feitas pelo Instituto Ambiental do Paraná (IAP) constatou que a água consumida pelos índios está contaminada por coliformes fecais, bactéria encontrada em fezes. Para a indigenista da Funai Luzia de Lima, a desintegração ocasionada pela questão fundiária estagnou o processo educacional dos índios. ‘‘Houve atrasos na alfabetização dos jovens’’, constata.

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