No meio do Rio Paranapanema, os pescadores Celso Timóteo da Silva, 42 anos, e Daniel Alves, 43, mostram o ponto mais ao norte do Paraná. Segundo eles, experientes no ramo, um lugar bom de peixe, dos melhores da região, mas que um dia já foi melhor, antes da construção da barragem da Usina Hidrelétrica de Taquaruçu, dezenas de metros rio acima.
Faz pouco tempo que o pessoal da prefeitura de Jardim Olinda, cidade de 1,5 mil habitantes, atinou-se para o fato de que o ponto mais setentrional do Paraná está ali, dentro dos limites dos 128 quilômetros quadrados do município. A linha imaginária que deixa o Estado de São Paulo do outro lado passa onde os geógrafos chamam de talvergue (a parte mais profunda) do rio.
Nas margens, uma bem preservada mata ciliar permite a vida de fauna abundante. Macacos se exibem como se vaidosos fossem para as lentes da máquina fotográfica. Segundo os pescadores, jacarés também dão o ar da graça constantemente.
Em comum, a prefeitura, Daniel e Celso nutrem o desejo de que o fato de o ponto mais setentrional do Estado estar no município ajude a impulsionar o turismo, uma boa fonte de renda para quem fica sem pescar, por conta do período de defeso, pelo menos um terço do ano.
A prefeitura é a maior empregadora, dando trabalho para 200 pessoas. O outro ponto forte é a pecuária. A agricultura não gera grandes divisas. ''O município quando é pequeno e tem pouca representatividade política, como é o nosso caso, sofre muito. Por isso, buscamos alternativas'', destaca o vice-prefeito Juraci Paes Silva.
Na estância São Francisco, dentro do assentamento Mãe de Deus, encontramos os moradores, um casal, que estão mais perto do extremo norte paranaense. Francisco Luiz de Oliveira, 66, o Chiquinho, e Maria Bezerra de Oliveira, 65. Ele é cearense, de Várzea Alegre. Ela é pernambucana, de Garanhuns, a cidade do presidente Lula, mas não chegou a conhecê-lo. Já Chiquinho diz que trabalhou para ele, como segurança, durante uma visita do então sindicalista a um acampamento sem-terra, em Querência do Norte (113 km a leste de Paranavaí).
Assentados desde 1999, eles consideram uma bela obra do destino o fato de morarem tão pertinho do rio. Chiquinho sempre foi apaixonado por água, não sai de perto do rio. ''No sorteio, fiquei justo com esse lote. Coisa boa demais'', diz o homem que já imaginava ser o último do norte do Estado. A FOLHA só confirmou.
No lote de 10 alqueires, 30 cabeças de gado garantem 25 litros de leite por dia. Boa parte dona Maria transforma em requeijão, queijo e manteiga. No pedacinho de terra que sobra, tem milho, abóbora e mandioca. ''Daqui, só para o cemitério'', finaliza Francisco. (W.S.)

mockup