Antes do embarque, os bois estavam abrigados em galpão que Celso e Idelfonso mandaram construir numa área cedida pelos franciscanos no distrito de Madaram, frades indianos que também entendiam italiano. Na memória de Neco ficou ''a região típica de plantação de arroz'' e para obter uma ''ração bruta'' que servisse ao gado durante a viagem usaram a palha do pé, não a casca do grão, misturando-a farelo e grãos de amendoim e um resíduo de caroço de algodão. ''Compramos tinas de chapas galvanizadas e da noite para o dia colocávamos a mistura em água salgada para torná-la digestiva.''
E embarcaram a boiada, em Madras, 119 cabeças, pois um bezerro havia nascido na véspera. ''No navio, limpávamos a sujeira do gado, o estrume e a urina misturados à forração com palha de capim no piso de ferro. Jogávamos no mar'', recorda Neco.'' Ildefonso e Neco viviam impregnados. Fretado em Lubeck, Atlântico Norte, o ''Cora'' tinha o refeitório, o banheiro e o alojamento coletivos, ''nada individualizado'' exceto a cabine do comandante.
''De botas e roupas sujas, a gente entrava no refeitório e todo mundo saía. Passamos a fazer as refeições sozinhos.'' Neco até ri ao recordar. ''Mas foi muito difícil'', resume. Só ele e Ildefonso não eram alemães a bordo e se comunicavam com os demais por alguns vocábulos em inglês e gestos.
Aguardado por Celso, que está no porto com uma carga de ração, o ''Cora'' atraca na ilha Las Palmas (Espanha) em 14 de março à tarde. E à noite, já está no rumo de Caiena, onde chega a 25, concluindo uma viagem de 56 dias.
Pressão do Itamaraty
Fernando Garcia Cid, outro filho de Celso, e três peões unem-se a Ildefonso e Neco na ilha de La Mére, onde permanecerão cinco meses com os animais. Provavelmente sob pressão do Itamaraty, o governo francês ordena a retirada. No Brasil, o presidente Juscelino Kubitschek e o vice-presidente João Goulart interferem a favor de Celso, mas as autorizações para desembarque são revogadas quase imediatamente no âmbito do Ministério da Agricultura. Numa estratégia do governador Moysés Lupion, o Paraná encampa nominalmente a importação e a Assembleia Legislativa instala uma Comissão Parlamentar de Inquérito.
Enquanto isso, o barco que partira de La Mère, em 29 de julho, está no rumo de Paranaguá e no noticiário nacional, baseado no boato de que se trata de ''gado empesteado'', a ser exterminado, havendo até uma posição do comandante do 5º Distrito Naval, almirante Augusto Rademaker, contrária ao desembarque. Entretanto, acaba prevalecendo o parecer da Carteira de Comércio Exterior (Cacex) do Banco do Brasil, em 8 de agosto, considerando irrevogável uma autorização de desembarque concedida pelo Ministério da Agricultura em junho.
No dia 10 de setembro os bois são desembarcados na Ilha das Cobras, para quarentena. Conforme uma síntese no livro ''O Tempo de Seo Celso'', de Domingos Pellegrini, ''contando-se as mortes e nascimentos desde a Índia, saíram de lá 119 cabeças e desembarcaram 103''.(W.S.)

mockup