No Monte Cristo, pobreza e abandono chamam o mosquito
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sexta-feira, 07 de fevereiro de 2003
Fábio Galão<br>Reportagem Local 
No universo de 112 casos de dengue confirmados desde o início do ano na zona leste de Londrina, chama a atenção o fato de 86 destes registros estarem concentrados nos jardins Marabá, Monte Cristo e Santa Fé. Os números podem se tornar maiores ainda hoje, já que a 17 Regional de Saúde deve divulgar nova estatística da dengue na cidade.
Em sua aparência, Santa Fé e Marabá são bairros de população de baixa renda limpos, que não justificariam a alta incidência de dengue. Mas entre os dois fica o Monte Cristo, um dos bairros mais miseráveis de Londrina. Os poucos quarteirões do local não têm rua asfaltada nem rede de esgoto. As casas são construídas em cima do mato, em jardins não-carpidos, e os muitos terrenos baldios parecem ideais para a proliferação do mosquito da dengue.
''Eles descem a rua pra deixar lixo aqui embaixo. O lugar é muito sujo, e a população não sabe dos cuidados pra se proteger do mosquito da dengue. Na divisa do nosso bairro com o Monte Cristo, tem uma chácara que tem até cachorro morto. Tem todo tipo de sujeira'', denuncia a dona de casa Ana Maria dos Santos, 43 anos, moradora do Santa Fé.
Mãe de três filhos, ela está com dengue. Há duas semanas, passou doze dias de cama. ''Tomei uma injeção no posto e melhorei. Agora, de ontem para hoje, voltei a ter os sintomas. Estou com ânsia de vômito, uma canseira nas pernas, febre. Pela manhã, urinei sangue'', conta Ana. Ela não foi a única a ser vitimada pela doença na família - o filho do meio, Mateus, de 18 anos, deixou de ir ao trabalho por uma semana no final de janeiro porque estava com febre. ''Mas só suspeitamos, não foi confirmado'', explica Ana.
Ironicamente, ela toma todos os cuidados para não deixar água parada nos muitos vasos de sua casa, e foi picada pelo mosquito. ''Já vimos faltar no Monte Cristo comida, água, luz, mas nunca a dengue tinha batido tão forte'', diz Ana. A família da dona de casa apresenta o perfil básico dos moradores do Santa Fé: humilde, tem como sustento um salário mínimo do marido, pedreiro, a ajuda dos filhos e uma cesta básica que Ana ganha por realizar trabalho voluntário.
Esta é a mesma situação dos moradores do Marabá, onde a também dona de casa Maria Cristina Rodrigues Silva, 29 anos, consegue ter ainda menos num cenário de poucos recursos. Ela tem oito filhos para criar, sem marido, que está preso há oito meses por homicídio. Tira seu sustento da ajuda de amigos, dos R$ 100,00 da Bolsa Escola Municipal e do trabalho como catadora de papel.
Para completar, recentemente ficou de cama por 15 dias devido à dengue. ''Tive febre, dores pelo corpo, vômito, achei que ia morrer. Cheguei a me levantar para ir trabalhar e desmaiei no meio da rua'', lembra Maria. Tanto o Marabá quanto o Santa Fé apresentam terrenos baldios e datas abandonadas, ideais para se transformarem em focos de dengue.
Entretanto, nada chega perto da condição de abandono do Monte Cristo. Muitos moradores trabalham como catadores de plástico e papel. Nos quintais, garrafas de refrigerante vazias se acumulam. No final do bairro, uma espécie de oficina de reciclagem mantém dezenas de pneus ao sol, a maioria acumulando água parada.


