No princípio, tudo era terra vermelha na pequena Londrina que nascia cercada por densas matas que iam ao chão para dar lugar aos cafezais. Quando chovia, amassava-se barro. Vinha o sol e o poeirão subia. Nos quintais, galos cantavam e galinhas cacarejavam.
Aos poucos, o concreto foi ganhando espaço e os prédios de muitos andares foram subindo. O asfalto cobriu a terra e a cidadezinha promissora, planejada pelos ingleses para ter uns 30 mil habitantes, virou cidade grande, com trânsito intenso e grande valorização imobiliária de seus espaços.
Mas às margens da Avenida Dez de Dezembro, uma das mais movimentadas de Londrina, atrás de um grande supermercado, e pertinho da Avenida Duque de Caxias, a menos de um quilômetro do Centro Cívico da cidade, uma família dá-se ao luxo de morar em área nobre, porém com cerca de balaústre em vez de muros e quatro vacas, dezenas de galinhas, uma égua e um potro como animais de estimação, além dos cachorros e do papagaio que também habitam o lugar.
O ''sitiante'' é Sérgio Gonçalves Leite, que ali reside com a mulher e quatro filhos. Ele conta que já faz mais de 20 anos que sua família é responsável por cuidar do terreno, que pertence a um empresário, e reconhece que é privilégio para poucos morar na cidade e dar de cara com uma paisagem rural ao abrir as janelas, mesmo tendo que cumprir dupla jornada de trabalho para deixar tudo em ordem.
Depois de trabalhar o dia inteiro como serralheiro, Sérgio ainda tem que encarar a lida com os animais no fim da tarde. Ultimamente, depois que a vaca Nega pariu o bezerro Gersinho, ele tem também que acordar mais cedo para fazer a ordenha. O leite serve para o consumo da família e para a produção de queijos.
Temperamental, Nega dá trabalho, principalmente porque anda cheia de ciúme do filhote, o que deixa a vida de Sérgio ainda mais difícil, precisando de muito trato para conseguir ordenhá-la. Mesmo diante disso, o homem não reclama. ''Os bichos, na verdade, são uma terapia. É melhor ficar com o corpo cansado do que com a mente estressada. Eu fico feliz também quando aparecem ali na cerca pais trazendo os filhos ou avôs com os netos para mostrar os animais às crianças'', relata.
Mas por que o ''sítio'' resiste no meio da cidade? Segundo o nosso personagem, o terreno antes ia da Dez de Dezembro até a Duque de Caxias, mas boa parte foi vendida para o supermercado. No pedaço que sobrou, tem algumas minas d'água e o córrego Guarujá corta o terreno, desaguando no córrego das Pombas, aquele que passa pelo canal no canteiro da Dez de Dezembro, fatos que entravam uma negociação da área.

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