‘‘Uma hidrelétrica vai trazer muito benefício para nós. A cidade vai ganhar muito com os royalties e eles vão dar uma outra área ambiental pra gente’’. Comentário informal de uma funcionária da prefeitura de Telêmaco Borba, ouvido pela reportagem dentro da Secretaria de Meio Ambiente daquela cidade.
  Se fosse tão simples... Mas o meio ambiente não se presta a moeda de troca. Um ecossistema perdido é insubstituível. Se uma parcela da sociedade - talvez a maior - acredita que os frutos de um grande empreendimento compensam essa perda, há de se respeitar a opinião. Inconcebível é que essa escolha seja feita à sombra da desinformação, como se observa hoje.
  Entre pesquisadores de diversas áreas, é consenso que a construção de uma hidrelétrica acarretaria danos profundos e irreversíveis ao Rio Tibagi. A discussão volta à pauta do dia junto com o projeto da Usina Hidrelétrica (UH) Salto Mauá, que a empresa CNEC Engenharia S/A almeja construir na divisa dos municípios de Telêmaco Borba e Ortigueira. O projeto já está sob avaliação do Instituto Ambiental do Paraná (IAP) e começa a provocar calafrios nos defensores do meio ambiente.
  ‘‘Somos totalmente contrários à execução de qualquer obra desse porte. O ecossistema do Rio Tibagi é o único que ainda mantém uma diversidade razoável, principalmente de peixes, para a Bacia do Paranapanema. Com uma grande hidrelétrica, estaríamos condenando essa fauna a prováveis extinções, por questões reprodutivas e alimentares’’, alerta o biólogo da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Mário Orsi, expressando a opinião de grande parte da comunidade acadêmica.
  Hoje, a maior hidrelétrica instalada no Tibagi tem pequeno porte - a Usina Presidente Vargas, de propriedade da indústria de celulose Klabin, instalada em Telêmaco. Mesmo assim, o rio não conseguiu se livrar dos efeitos de um grande empreendimento energético. Segundo Orsi, estudos mostraram que a fauna do manancial foi bastante afetada pela UH Escola Mackensie, instalada no Rio Paranapanema, que forma o reservatório de Capivara, onde ‘‘morre’’ o Tibagi.
  O professor do Departamento de Biologia Animal e Vegetal da UEL, Francisco Striquer Soares, ressalta que a construção de uma usina de médio a grande porte acabaria com uma das principais - e vitais - qualidades do Rio Tibagi, que é sua capacidade de auto-recuperação. Sendo um rio de corredeiras, com 762 metros de variação de altitude entre a nascente e a foz, as águas do Tibagi ganham velocidade e, com isso, uma grande capacidade de depuração dos poluentes. ‘‘Agora você imagine transformar tudo isso num grande lago. Essa água não vai ter como se recuperar’’, afirma.
  O Rio Tibagi já chegou a ser alvo de sete projetos de hidrelétricas, número reduzido para quatro na década de 90: além da Salto Mauá, constam dos planos de empresários do setor energético as UHs Cebolão, Jataizinho e São Jerônimo. Esta última chegou à fase de audiências públicas em 2001, mas acabou sendo descartada - pelo menos até agora - após uma série de protestos que chamavam a atenção principalmente para o alagamento de territórios indígenas.
  Além do impacto ambiental, os dois pesquisadores justificam sua indignação em relação a projetos de usinas hidrelétricas pelo fato de o Estado já produzir excedentes de energia. ‘‘A própria Copel fornece este dado: somos superavitários em mais de 20% de energia. O Paraná não comporta o impacto ambiental e social de uma UH, sendo que é um estado que já foi superimpactado para gerar energia ao resto do País. Teria que se procurar outras alternativas, como as PCHs (pequenas centrais hidrelétricas), menos impactantes’’, sustenta Orsi. ‘‘Aproveitar a riqueza do rio apenas para potencial hidrelétrico é desconsiderar a inteligência humana’’, arremata Soares. (V.N.)

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