Jornadas exaustivas, equipamentos ultrapassados, baixos salários, falta de cumprimento das leis trabalhistas. Como se tudo isso não bastasse, é comum encontrar cortadores de cana do Norte do Estado se queixando de maus tratos, humilhação e até mesmo exploração por parte dos patrões.
Um dos fatores que contribuem ainda mais com a dura realidade dos cortadores de cana é o método de remuneração, em que o trabalhador ganha por metro quadrado cortado. A Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado do Paraná (Fetaep), afirma que isso tem feito pessoas se esforçarem além dos limites físicos, gerando mutilações, paradas cardíacas e derrames cerebrais.
Um grupo de 90 cortadores de cana de Centenário do Sul, que trabalha na Fazenda Santo Antônio, localizada em Jaguapitã, resolveu mudar essa realidade. Dispostos a voltar ao trabalho somente com a garantia de melhores condições, os cortadores estão desde segunda-feira parados, em forma de protesto, na estrada de acesso à fazenda.
O presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Astorga, Claudinei de Carli, que também é representante da Fetaep no norte do Estado, acompanha a ação dos trabalhadores. ''Os cortadores de cana-de-açúcar são os trabalhadores mais explorados no meio rural e infelizmente a maioria deles não busca seus direitos. Eles precisam reinvindicar melhorias sempre porque estão ligados à uma atividade que exige muito esforço físico. Esperamos que depois da manifestação desse grupo, outros trabalhadores que sofrem os mesmos problemas possam procurar os sindicatos de suas regiões para denunciar esse tipo de coisa'', disse Claudinei.
Em todo Paraná existem cerca de 70 mil cortadores de cana-de-açúcar; destes, pelo menos 12 mil atuam de forma informal, sem nenhuma garantia trabalhista. Segundo Claudinei, a região norte do Estado é a que concentra o maior número de trabalhadores.
No último dia 19, Carlos Aparecido Bento, um cortador de cana da Usina de Açúcar e Álcool de Jacarezinho, morreu queimado quando ele e um companheiro trabalhavam na queima de um canavial e foram cercados pelo fogo. A polícia vai ouvir os responsáveis pela Usina e demais funcionários para saber se houve negligência da empresa quanto à segurança. Na madrugada de ontem, o outro trabalhador que estava internado na Santa Casa de Jacarezinho com 90% do corpo queimado, não resistiu aos ferimentos e também morreu.
Arnaldo Nascimento de Jesus, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Astorga, confirma que os cortadores de cana ultrapassam os próprios limites físicos para ganhar mais, porém, a exploração, segundo ele, parte dos próprios patrões.
No caso dos trabalhadores da Fazenda Santa Antônio, as principais reinvindicações envolvem questões sociais, como cumprimento de folgas e pagamento aos funcionários com atestado médico; mais atenção para as questões ligadas à sa© úde dos trabalhadores e melhores equipamentos.
Há cerca de quatro meses, Claudio de Jesus, 38 anos, sofreu uma queda quando cortava cana com a enxada, que pesa cerca de cinco quilos. Ele sofreu uma fratura na coluna e até hoje não conseguiu um atendimento médico adequado para resolver o problema. ''No dia eu fui no médico e cheguei a pegar uma licença; minhas costas ainda dóem mas se eu não trabalhar, não ganho'', comentou.
As botas utilizadas pelos cortadores, que possuem proteção de ferro no bico, também estão velhas e gastas, mas para ganharem uma nova, eles precisam tirar do próprio bolso R$ 30 reais. O piso salarial da categoria é R$ 450.
As mulheres se sentem ''incompreendidas'' e afirmam que não há ''trégua'' mesmo em dias que elas apresentam maior cansaço físico. ''Tem dias do mês que a gente tem cólica e muita dor de cabeça. Quando a gente para um pouco para descansar, o fiscal da fazenda vem e manda a gente continuar, dizendo que fazemos corpo mole'', comentou Anita Ferreira, 40 anos.
A reportagem da Folha não conseguiu falar com o proprietário da fazenda, mas conversou com o engenheiro agrônomo da propriedade, Fernando Moretti. Ele disse que a administração da fazenda tem interesse em ''resolver logo o problema''. ''É de nosso interesse negociar com eles. Vamos sentar numa reunião na Delegacia do Trabalho para discutir as reinvindicações''.

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