Dizem que dono de bar sempre tem uma boa história para contar, mas no caso de Jaime Santos Mendez Gomes daria até para escrever um livro com seus ‘‘grandes feitos’’ em 38 anos de profissão. Muito antes de surgir a polêmica ‘‘lei seca’’, os clientes do Bar Cinelândia (atual Bar do Jaime), no Centro, tinham carona garantida para voltar para casa.
  ‘‘Comprei um Maverick verde, lindo. Usava o carro para vir trabalhar e para levar os ‘bebuns’ embora. Além de garantir que eles chegariam bem em casa, era uma forma de me livrar dos bêbados e conseguir fechar o bar’’, conta Jaime, que após várias idas e vindas acabou comprando uma Perua Ford amarela. ‘‘Era espaçosa e cabia mais gente, pois mesmo tendo carro alguns clientes não vinham dirigindo já pensando na bebedeira’’, relembra.
  Defensor da nova lei, que pune com mais rigor quem bebe e dirige, Jaime afirma que mesmo sendo raro ainda leva alguns clientes para casa, quando acha necessário. ‘‘Quando o cara não tem condições de sair dirigindo, não deixo ele ir embora. Fecho o bar e o deixo na porta de casa’’, garante.
  O serviço, inusitado em Londrina, acabou virando atração, já que as opções para beber na cidade eram poucas. Mas o que levou muita gente ao Bar Cinelândia, inaugurado em 1972, na Souza Naves, também foram os pratos feitos. ‘‘Ninguém servia este tipo de refeição e, por isso, vinha gente de outras regiões só para comer o prato que continua com o mesmo cardápio até hoje. Arroz, feijão, carne cozida e batata frita’’, afirma.
  Outro ‘‘feito’’ de Jaime, que foi adotado por quase todos os bares da cidade, foi pendurar o isqueiro no balcão, para que todos tenham acesso ao fogo. ‘‘Como eu vendia muito cigarro, estava cansado das pessoas pedirem fogo a toda hora. Pendurei o isqueiro e pronto. Prático, não é?’’, justifica ele, que diz também ter sido o pioneiro na recarga de isqueiro, que na época era um acessório caro. ‘‘Um amigo construiu uma válvula para carregar os isqueiros direto do botijão de gás. Aí virou moda. Todo mundo pagava metade do preço e eu enchia os isqueiros’’, diz.
  Nascido em Portugal, Jaime veio para Londrina nos anos 70, acompanhado por toda a família, que comprou o Cinelândia. Dezesseis anos depois, o nome passou a ser Bar do Jaime e também mudou de endereço, instalando-se na galeria do Centro Comercial.
  Hoje, Jaime pensa na aposentadoria, mas garante que não irá fechar o bar. ‘‘Aqui tem muita história guardada e trabalhar em bar é sempre muito bom. Tenho clientes que freqüentam meu balcão há mais de 30 anos. Como iriam ficar esses amigos se eu fechasse o bar?’’, brinca.

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