No Aquiles Stenghel, a ocupação deu certo
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quarta-feira, 25 de junho de 1997
Da Redação 
Milton DóriaNovo retratoOcupantes do Stenghel conseguem regularizar situação: festaAs 215 famílias que invadiram o fundo do conjunto Aquiles Stenghel (zona norte) em agosto do ano passado conseguiram tudo o que queriam - um terreno a preços acessíveis e no lugar que escolheram. Hoje, a maioria dos invasores se abre em risos quando o assunto é a conquista da casa própria. E até um churrasco já está prometido para todos que ajudaram na batalha dos invasores do Aquiles, desde os barracos de lona até a regularização dos lotes. Na lista dos convidados estão funcionários da Prefeitura, da Companhia de Habitação de Londrina (Cohab-Ld), o prefeito Antonio Belinati (PDT) e um advogado particular que defendeu os invasores.
A festa começou no dia 22 de maio, quando representantes dos invasores voltaram da Prefeitura com a notícia que o pedido de reintegração de posse da área seria esquecido. O pedido foi feito pelo ex-prefeito Luiz Eduardo Cheida no ano passado. Essa semana o juiz da 3ª Vara Cível, Vitor Roberto Silva, deferiu o pedido de suspensão da reintegração por 90 dias. Segundo os moradores, nem as audiências marcadas pelo juiz foram realizadas por falta de representantes da Prefeitura.
Cheguei correndo e gritando para todo mundo que a gente tinha conseguido. Teve até rojão, conta a diarista Eide Machado, 25 anos, que, junto com a irmã Maria Aparecida, 30, representa os invasores do Aquiles. Valeu a pena! A decisão de suspender a reintegração de posse surgiu depois de uma visita do presidente da Cohab, Wilson Mandelli, ao local. Depois de algumas medições, técnicos da Cohab concluíram que a maior parte da invasão estava fora do fundo de vale.
Apenas três das 100 famílias instaladas na rua Ana Piacentini, a última do conjunto Aquiles Stenghel, foram consideradas como invasoras de fundo de vale. As outras 115 invadiram os fundos de terreno particular já em processo de doação à Prefeitura. A solução encontrada para as três construções foi a mudança da casa dos fundos do terreno para a frente.
A energia elétrica já foi autorizada e algumas casas já têm luz, que será paga em 24 vezes de R$ 5,80. O próximo passo, espera os moradores, será a ligação da água. Por enquanto, eles dividem cavaletes comunitários. A demarcação das ruas pode exigir recolocação das casas, segundo Mandelli. Ele estima que dentro de oito meses todo o processo de reenquadramento fundiário dos fundos do Aquiles Stenghel esteja pronto. O valor dos lotes ainda não foi definido, mas os moradores deverão pagar, segundo eles próprios, no máximo R$ 30,00 mensais. Eles ainda não sabem por quantos anos.
A parte de cima da invasão, onde todas as famílias já ergueram seus primeiros cômodos de alvenaria, já tem até nome de bairro - jardim dos Campos. Uma das ruas também já tem nome. A rua 2 agora se chama São Pedro, em homenagem ao mais velho dos invasores do local, o seu Pedro. Eide sugere que a rua onde se instalou tenha o nome de seu filho - a primeira criança nascida na invasão. Hoje com seis meses, Charles Henrique, segundo a mãe, quase nasceu debaixo da lona.
Alvarina da Silva, 65 anos, foi a primeira a montar o barraco no fundo do Aquiles Stenghel. Isso teria sido num domingo à noite. Na segunda-feira estava cheio de gente. Até me assustei.
Dona de um carro, uma moto e três imóveis - casa, apartamento e lote, Alvarina teve que vender tudo há cerca de cinco anos para pagar o tratamento médico do filho mais novo que sofrera um acidente automobilístico.
Ela conta que o filho ficou na cama durante três anos e seis meses, o acabou arruinando a situação financeira. Sem condições de pagar aluguel, ela ocupou a casa de um vizinho que está na prisão. Mas um dia, ele mandou recado avisando que estava voltando. Ele dizia que ia morar comigo e eu saí depressa, diz. Lembrei que tanta gente vivia em barraco debaixo de ponte e resolvi armar um debaixo da árvore até que pudesse alugar uma casa.
(Edmara Michetti)


