No Aeroporto, um pequeno zoológico
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de setembro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Há 71 anos, em uma das muitas propriedades rurais que cercavam Londrina, um garoto de 8 anos transformou um pedaço de madeira em cavaquinho. Foi o primeiro de muitos instrumentos musicais, esculturas, relógios, objetos de decoração produzidos pelas mãos hábeis de Antonio Ponce Cruz, um ex-produtor rural e comerciante aposentado, que nunca abandonou o hobby de trabalhar na madeira. Hoje o artesão de 79 anos mora em uma casa que construiu para a família no Bairro Aeroporto (Zona Leste) e passa grande parte de seus dias em uma pequena oficina a poucos metros da residência.
É ali, nas bancadas empoeiradas e cheias de ferramentas, que o homem com alma de garoto dá asas à sua paixão. Nas últimas décadas um verdadeiro zoológico se formou: leão, jacaré, pinguim, zebra, pavão, cachorro, tatu, cavalo, coruja, girafa, burro, coruja, arara, boto e até dinossauros convivem na garagem da casa da família, cuidadosamente dispostos em prateleiras. ''Não tenho preferência por bicho nenhum. Gosto de todos'', garante. A vocação para trabalhar a madeira é quase uma obsessão: ''Não posso ver uma rama torta que já quero fazer alguma coisa'', diz o ex-lavrador.
Cruz nunca usou o seu dom para ganhar dinheiro. Uma ou outra peça que comercializou, ao longo destes anos, foi consequência. ''Às vezes aparecem algumas encomendas. É assim com os instrumentos musicais - ele fabrica todos os de corda -, mas sempre que vendo um já trato de fabricar outro igual, para ficar no lugar'', diz o artesão autodidata. ''Nunca fiz curso para aprender a fazer escultura. Escola mesmo eu só frequentei até o segundo livro. O resto que sei aprendi tudo sozinho.''
Depois que se mudou para a cidade Cruz trabalhou como carpinteiro, pedreiro e, mais tarde, montou uma loja de material de construção com o filho. ''Mas em todo lugar que morei montei uma oficina para fazer minhas coisinhas'', revela. Apesar do passado rural, ele diz que nunca gostou de caçar e pescar nas horas vagas. Muito menos jogar conversa fora na mesa de bar ou assistir a jogos de futebol. ''O meu passatempo sempre foi mexer com madeira. Quando era mais novo também não dispensava um baile nos sábados à noite, até porque eu tocava sanfona'', revela.
Na última década o artesão também passou a consertar instrumentos musicais (só os de corda e acordeons) e a produzir relógios de parede. A pedido de um amigo, está esculpindo o nome ''Guilherme'' em uma placa de cedro para o rebento que ainda nem nasceu. ''Não gosto de ficar parado.''
A mulher do descendente de argentinos com espanhóis, dona Leonor, conta que o marido sempre foi assim. ''Quando ele me conheceu fez uma caixinha que tenho até hoje. Ele vivia fazendo broches, estojos, até uns anéizinhos que minhas primas adoravam'', diz ela, enquanto faz questão de levar a repórter para um passeio pelos cômodos da casa, onde os bichos esculpidos em madeira também estão segurando portas e pendurados nas paredes, em forma de quadros.
O primeiro presente, que hoje repousa na cômoda de um dos quartos, também foi exibido. ''Isso é coisa que não acaba nunca'', elogia dona Leonor, sem esconder a admiração pelo talento do marido. ''Essa caixinha eu fiz para conquistar o coração dela. Já estamos casados há 57 anos'', devolve ele, também orgulhoso pela eficiência de seus mimos.


