Ninguém quer morrer, diz psicóloga
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sábado, 16 de agosto de 1997
Da Redação 
Marcos BorgesPopulação de riscoEle queria matar a esposa com um garfo e depois se matar com o mesmo objeto. O agressor não concebia ter pago um aborto à mulher, de um filho que nem era seu. Esta história complexa e recheada de drama terminou na reconciliação do casal que conseguiu, por nosso intermédio, ver que nem tudo está perdido, conta a psicóloga Ana Maria Rabelo. Ela é coordenadora do Centro de Valorização da Vida, conhecido como CVV. Além da profissão de psicóloga, Ana Maria tem 13 anos de experiência no CVV, atendendo problemas existenciais e psicológicos.
Ela entende que ninguém quer morrer (se matar): Na realidade as pessoas querem se livrar de uma culpa, de uma dívida, de um problema amoroso e da solidão. Falando sobre a entidade que coordena, a psicóloga reconhece que o Centro tem limitações nos atendimentos telefônicos pelo distanciamento entre as partes. Por outro lado, na medida do possível, os trabalhos das atendentes tem colhido bons resultados no auxílio aos desesperados.
O CVV de Londrina atende 24 horas por dia, pelo telefone 330-4111. Na hora, a pessoa tem aconselhamento e pode conversar à vontade, sem prazo para terminar. Ana Maria enfatizou que durante o diálogo não se fala em religião, a não ser quando a pessoa solicita. Ela contou que o CVV é muitas vezes criticado por isso, mas não falar em religião faz parte da própria filosofia de trabalho, instituída pelos samaritanos de Londres, onde a instituição teve início. O trabalho do samaritano é voluntário e a pessoa precisa fazer um curso de pelo menos quatro dias. A sede do CVV fica localizada na rua Mossoró 83 (zona central). No local, são recebidas por volta de 25 chamadas/dia e nenhuma é deixada sem atendimento, garante Ana.
A maioria dos telefonemas são dados por adolescentes. Houve casos em que as pessoas estão prestes a ingerir veneno ou se ferir propositalmente ao telefonarem para o CVV. Buscamos baixar o seu desespero: conversamos e pensamos com ela, tentando contê-la. Maria Rabelo comentou que ultimamente as ligações diminuíram por causa do último aumento das tarifas telefônicas.
O Centro recebe os mais variados tipos de ligações. Segundo ela, ligam até pessoas que desejam se masturbar, pensando que o CVV é o disque-sexo. Mesmo assim atendemos estas pessoas como qualquer outra que precisa de nossa ajuda. Tentamos mostrar outros valores. Imagine o grau de solidão que estas pessoas estão sofrendo?, questiona Ana Maria. Ela também afirma que é preocupante o número de suicidas em Londrina e que o Estado deve tomar alguma providência para conter o problema.
(Paulo Ubiratan)


