Tudo indica que a combinação de calor e imprudência continuará sendo um problema grave nos lagos, rios e ribeirões de Londrina, nesta primavera e também no próximo verão. A prevenção de acidentes cobrada por frequentadores do Lago Igapó 3 logo após a morte do garoto Welinton Lucas Filho, 11 anos, vítima de afogamento naquele local, no último domingo não está nos planos de nenhum órgão público. Autoridades entrevistas pela reportagem da Folha admitiram que ainda não haviam refletido sobre o assunto e que desconheciam as estatísticas de mortes por afogamento na cidade.
''Não temos como evitar'', sentenciou o presidente da Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização (CMTU), Wilson Sella, sobre os acidentes que considera ''fatalidades''. São casos, no entanto, que se acumulam ano após ano, com tragédias quase certas nos meses mais quentes. Em todo o ano de 2002, de acordo com dados do Corpo de Bombeiros, 19 pessoas foram vítimas de morte por afogamento em Londrina. Dessas, 15 morreram nos períodos de janeiro a abril e outubro a dezembro. Só no mês passado, os bombeiros resgataram os corpos de três vítimas.
Segundo o tenente do Corpo de Bombeiros de Londrina, Wilson Oliveira Paulino, o maior índice de afogamentos é registrado entre crianças e adolescentes. Ele observa que esse público é formado, em sua maioria, por pessoas de baixa renda, que não têm acesso a clubes e piscinas particulares.
Há dúvidas dentro do próprio poder público sobre quem seria responsável por prevenir os acidentes. ''A Sema (Secretaria Municipal de Meio Ambiente) já foi responsável, mas creio que hoje essa atribuição seja da CMTU'', aponta o assessor da secretaria, Sidney Antônio Berto. Outro funcionário da Sema, João Batista Souza, responsável pelo monitoramento da Bacia do Ribeirão Cambezinho, admite que o município ainda não sabe como controlar os acidentes com afogamento. ''Estamos em um impasse, precisamos discutir isso. Certamente teria que haver guardas nos locais de risco, especialmente no verão'', observa.
O presidente da CMTU garante que a única medida viável para o órgão é a colocação de placas alertando os banhistas, o que já existe nas margens do Lago Igapó. ''Seria impossível fiscalizar todos os lagos e rios da cidade, assim como não é possível ter um guarda a cada esquina para evitar a imprudência dos motoristas'', compara. Para diminuir o número de afogamentos, Sella defende a implementação de campanhas educativas. ''A responsabilidade, em primeiro lugar, é dos banhistas ou dos pais. Só podemos colaborar com informação'', argumenta. Não há nenhuma campanha pública em veiculação na mídia, atualmente.
O procurador jurídico do Munícipio, Carlos Scalassara, destaca que não há nenhum dispositivo legal que obrigue o poder público a garantir a segurança dos banhistas em lagos e rios, bens de uso comum do povo. Por outro lado, o procurador aponta que se houver necessidade de um trabalho de prevenção, o responsável seria o Estado, através do Corpo de Bombeiros. ''Compete a esse órgão o patrulhamento preventivo dos lagos e a orientação aos banhistas, especialmente em fins de semana e épocas de muito calor'', indica.
''Como vamos cuidar da proteção de uma prática que é proibida? É um absurdo, seria como um incentivo. Além disso, não temos efetivo para esse trabalho'', protesta o tenente Paulino, do Corpo de Bombeiros. Ele recorda que, até cerca de dois anos atrás, os bombeiros mantinham uma viatura próxima à barragem do Lago Igapó 1. ''Isso porque, naquela época, o lago era liberado para banho, não tinha proibição por placas, e a própria prefeitura incentivava o povo a nadar ali. Hoje, não faria mais sentido, a água não tem o mínimo de condições para banho'', destaca.
Com experiência em operações no litoral do Paraná, o tenente diz que nunca lidou com um público tão difícil quanto os frequentadores do Lago Igapó. ''Na praia as pessoas se acostumam com os guarda-vidas, pegam confiança. Aqui em Londrina é um público de fim-de-semana, que não respeita nenhuma regra. É uma questão cultural'', conclui. Em dezembro, 40 guarda-vidas do Batalhão do Corpo de Bombeiros de Londrina serão destacados para reforçar a segurança nas praias paranaenses.
Ontem, a Câmara Municipal aprovou em discussão única uma solicitação de informações ao Executivo, de iniciativa vereador Jamil Janene (PDT) sobre o não-cumprimento do parágrafo 4º, do Código de Posturas do Município, que trata da presença de salva-vidas nos quatro lagos Igapós. O artigo diz o seguinte: ''(...) o Executivo deverá manter permanentemente, em cada um deles, um salva vidas habilitado com formação esfecífica ou curso superior de Educação Física''. (Colaborou Lúcio Flávio Moura)

mockup