Niclevicz manda relato da tragédia via Internet
Paquistão Skardu/Askole, 17 de junho de 1998, nono dia da expedição ao K2. Hoje enfrentamos uma estrada bem pior que a de ontem. Deixamos Skardu às dez da manhã e, depois de dez quilômetros por um asfalto precáário, começamos a enfrentar os 112 quilômetros de terra restantes, que pretendíamos percorrer em seis horas. Nossa caravana era de 12 jipes.
Na carroceria dos veículos estava toda a nossa carga, bem como pendurados cerca de vinte carregadores que nos acompanharão até o acampamento-baseá. Os motoristas demostravam muita perícia, mas nos deixaram preocupados logo no início, pois dirigiam muito ráápido.
O que parecia inevitáável acabou acontecendo. Eu pensava que o jipe onde eu estava era o primeiro, mas encontramos pessoas assustadas na estrada. Nosso motorista disse que havia acontecido um acidente com um carro de nossa expedição. Meu coração gelou, pois eu não sabia qual dos jipes havia se acidentado. Continuamos em frente por uma longa subida. Do nosso lado, um abismo de mais de 50 metros levava diretamente às ááguas do rio Indo.
Pela encosta, vimos um rastro do jipe destruído, seguido de uma parte da carga que se espalhara. Saltei do carro correndo, procurando um lugar seguro para descer até a margem do rio, onde estavam algumas pessoas.
O ambiente era tenso e de muita tristeza. O jipe acidentado acabava de afundar no meio do Indo. Na margem havia três pessoas ensaguentadas. Toco a primeira delas, sinto o corpo quente, mas sem pulsação - estava morta. A outra pessoa, que gritava de dor enquanto descia, também acabava de dar o último suspiro. Mais choros se estalaram no fundo daquele abismo, pois a maioria dos carregadores são parentes entre si.
Além das duas mortes, outras três pessoas ficaram feridas, mas Chiara (a nossa médica) foi muito competente em atendê-las. Estamos suportando com muita dor tudo o que aconteceu hoje. Espero muito que cada um de vocês compreenda este momento. Sabemos de todos os riscos e jamais ultrapassaremos os nossos limites.
A expedição ao K2 pode ser acompanhada pela Internet no site http://www.sagarmatha.com.br. O próprio Niclevicz passa as informações por meio de um telefone celular via satélite.





