Neologismos do curitibano estão nas ruas
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quinta-feira, 10 de setembro de 1998
Israel Reinstein 
Depois de 14 anos, a Academia Brasileira de Letras (ABL) está renovando o seu velho dicionário - Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa. Com cerca de 400 mil palavras, o dicionário ganha mais seis mil. Mas será que entre elas estariam palavras como a nossa tradicional vina, que até hoje não conseguiu espaço nem no velho e bom Aurélio?
A lista da ABL, que normatiza a grafia das palavras do português, incluiu, em sua maioria, termos da informática na nova edição. Mas as expressões regionais dos paranaenses, especificamente os de Curitiba, muito provavelmente estão de fora. Talvez porque os imortais da academia jamais devem ter escutado o garoto da esquina ser convidado para comer uma fruta (Piá, vem chupar mimosa!). E, muito menos, comeram vina no pão-dágua - o cachorro-quente do Mignon, que existe há anos na Rua das Flores.
Palavras como vina e dolé, que denomina o picolé, nascem em cada uma das cidades do Brasil, explica o professor de linguística da Universidade Federal do Paraná, José Luiz Veiga Mercer. Mas a vina é única de Curitiba. Ela é uma corruptela da palavra wienerwurst, que é a salsicha de Viena, explica o ex-prefeito Rafael Greca. Greca aproveita para acrescentar outra corruptela: a broa, do alemão schwartzbrott (pão negro). Que passou a designar o pão de centeio e de outras variedades, conta.
Mas o linguajar do curitibano não se caracteriza apenas por essas palavras. A pipa ou pandorga torna-se raia, a mexerica do paulista é a mimosa e lâmpada é foco. O estojo de lápis vira penal e o balão na mão da criança vira bexiga. Essas palavras não são paranaenses, são de uma parte do Sul do Brasil, explica o professor Mercer. Ele conta que elas foram criadas pela colonização, com traços fortes dos açorianos que vieram do litoral. No Norte do Paraná, a influência é dos paulistas e mineiros; já no Sudoeste quem domina são os imigrantes europeus.
Mas todo este regionalismo vive numa constante luta com uma padronização que vem crescendo em todo o Brasil, diz Mercer. O professor credita essa mudança à nova migração na cidade e também aos meios de comunicação. Basta ver que quando entra no horário nobre uma novela como Gabriela, todo o Brasil passa a falar um pouco de baiano, acrescenta o ex-prefeito Rafael Greca. Nesta luta estão a força centrípeta da padronização e a centrífuga do tradicionalismo. Dessas duas surge a vida da língua portuguesa, complementa Mercer.


