Nem todos podem torcer pela Seleção
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quarta-feira, 10 de junho de 1998
Guilherme Pupo e Israel Reistein 
A sirene do Corpo de Bombeiros em Curitiba tocou três vezes ontem durante o jogo entre Brasil e Escócia, mas nenhuma delas foi para comemorar um dos dois gols brasileiros. Os bombeiros, assim como alguns outros profissionais, não interromperam suas atividades para assistir a estréia da Seleção na Copa.
Já estamos acostumados com isso, faz parte da nossa vivência. Não queremos que ninguém seja prejudicado e, quando toca o alarme, temos de atender o mais rápido possível, diz o capitão Aroldo Mateus.
Ontem, a 20 minutos do início da partida, quando o trânsito estava congestionado em várias regiões, os bombeiros saíram para atender uma colisão entre um automóvel e uma bicicleta, no bairro Boa Vista. No momento do primeiro gol, uma nova equipe deixou de assistir à partida para atender Adão Alves Pinheiro, 22 anos, vítima de um ataque epiléptico, que caiu, bateu a cabeça e teve traumatismo craniano.
Ainda no primeiro tempo de jogo, os bombeiros foram novamente chamados para atender a aposentada Maria Burda, 96 anos, que começou a passar mal e não conseguiu resistir, morrendo antes de chegar ao hospital. Nos últimos minutos da partida, um automóvel caiu em uma valeta na Avenida Iraí, em Pinhais (Região Metropolitana de Curitiba), e os bombeiros foram até lá.
No Hospital Cajuru, os funcionários do pronto-socorro fizeram 20 atendimentos, mas conseguiram assistir a boa parte do jogo. Os casos foram desde queimaduras com fogos de artifício até problemas clínicos.
Já na farmácia Drogamed, os funcionários ficaram mais tranquilos para acompanhar a Seleção. Fizemos somente uns três ou quatro atendimentos e alguns clientes acabaram ficando conosco para assistir ao jogo, conta Rogério de Souza Vilela.
Motoristasá á- A Polícia Militar do Paraná deixou cerca de 150 homens de prontidão para trabalhar nas rondas da região central, em caso de confusão na comemoração. Entre eles, estava a soldado Salete Aparecida Fuchs, que trabalha no Comando de Policiamento da Capital. Evangélica, ela disse que não ficou chateada por não poder assistir o jogo. Mas sei que alguns dos meus colegas gostariam de ver a partida, já que o futebol está no sangue do brasileiro, diz a soldado. Salete conta que a situação mais complicada ficou com quem estava na rua, pois não tinha acesso à televisão. Mas havia guardas que ficaram perto dos televisores das vitrines das lojas, acompanhando a partida.
Também os motoristas não puderam ver o jogo de estréia. José Lourenço dos Reis conta que as empresas de ônibus autorizaram cobradores e motoristas a escutarem a partida pelo rádio, dentro dos ônibus. Mas fica difícil de dirigir sem poder torcer, diz Reis. Ele conta que quando começou o jogo os únicos passageiros eram aposentados. Depois todo mundo desapareceu, menos nós, reclama.
Os entregadores do supermercado Mercadorama, Marcelo Araújo Rocio e Eliude Pinheiro Bom Borges, foram designados para entregar as compras na hora do jogo. Todo mundo resolveu fazer as compras antes do jogo e, daí, sobrou para a gente, diz Marcelo. Os dois só conseguiram saber que o Brasil tinha marcado um gol quando chegaram para entregar as compras numa das casas. Assim não tem graça ver a partida, reclama.Os bombeiros, assim como outros profissionais, continuaram trabalhando durante a estréia da Seleção Brasileira
Marcelo AlmeidaO motorista José Lourenço dos Reis escuta a partida de futebol pelo rádio, dentro do ônibus. Mas reclama: Assim não dá para torcer.ááA Polícia Militar
deixou cerca de 150
homens de prontidão
para trabalhar nas rondas


