O professor Marcos Antônio Striquer Soares, que leciona Direito Constitucional na UEL e na Unifil, concorda que, embora as leis determinem a realização de várias obrigações, o Estado nem sempre cumpre o seu papel. ''Em boa parte o Estado age mais no policiamento, e não para satisfazer os problemas sociais de fato. É preciso inverter essa ordem. O Estado precisa se apresentar para cumprir objetivos da sociedade, mas tem sido usado de modo egoísta e como fiscalizador'', avalia, lembrando da criação dos juizados nos aeroportos, enquanto favelas continuam sem delegacias. ''O Estado arrecada impostos, mas grande parte do dinheiro vai no ralo da corrupção em vários níveis. Desde a pessoa que não precisa, mas recebe bolsa família. Assim, sobra pouco de fato para os interesses sociais, e o que resta ainda é mal gerido''.
Para Soares, antes de tudo é necessário que a lei seja adequada ao momento em que a sociedade vive. ''Uma lei não pega porque, por algum motivo, não é adequada à realidade social. Às vezes por ingenuidade do legislador, ou porque a sociedade não está preparada para aquilo, embora a lei possa ser ideal'', afirma, citando como exemplo a lei do transplante de órgãos. ''Antes, ninguém era doador. Era preciso doar em vida e a família autorizar depois da morte. A partir de 1997, todos passaram a ser doadores. Mas as famílias começaram a não deixar, alegando o direito à religião, que é constitucional. Houve muita discussão, e, hoje, todos são doadores, mas é preciso autorização em vida e a família precisa autorizar após a morte'', relata.
Além de disciplinar o comportamento social, Soares afirma que a lei também pode ter um sentido pedagógico, de educar a sociedade para que esta adote uma determinada conduta, mesmo que não queira. Ele lembra que, em relação ao uso do cinto de segurança, com o passar do tempo as pessoas tomaram consciência da sua importância, independentemente da multa.

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