'Neguinho da Ilha' insiste em ficar
Trinta e sete anos de vida, apenas um fora da Ilha Grande. Esta é a história de Aílton Pereira, também conhecido como Neguinho da Ilha, um dos últimos remanescentes da área de proteção ambiental criada pelo Governo Federal para defender o patrimônio ecológico da área. Auto-proclamado defensor do meio-ambiente, ele ressalva, no entanto, que é necessário conciliar a preservação da fauna e flora com a permanência e sobrevivência das famílias nas ilhas.
''Não tenho nada contra o parque, mas o governo também precisa ver o lado do ser humano. Mas eles querem obrigar a gente a sair daqui. O problema é que na cidade não tem emprego suficiente e o pessoal acaba indo para o corte de cana como bóia-fria'', avalia. ''E a gente que mora aqui tem interesse em cuidar da natureza. Se alguém fizer alguma coisa errada eu sou o primeiro a corrigir. Como eu vou querer um incêndio da mata se dependo dela produzir'', acrescenta.
A produção de mel, tirado de colméias da floresta, é uma das principais atividades econômicas da família de Pereira, que chegou na Ilha Grande com apenas 1 ano. Além da apicultura, plantações de milho, mandioca, feijão, e criações de porcos e outros pequenos animais são a fonte de sustento da família, formada pela esposa Sueli e pelos filhos Hamilton, 17, e Andrei, 4. O mel e o própolis produzidos por Aílton Pereira são vendidas para empresa de Maringá e exportados para Alemanha e Japão.
Da área de 15 hectares, somente dois, por determinação do Ibama, são usados para o plantio de mandioca e milho, entre outras culturas. A fertilidade das terras inundadas de tempo em tempo facilita a produção, que não depende de defensivos agrícolas ou adubo. Por isso, Pereira salienta que a indenização a ser paga pelo Governo Federal tem de ser justa. ''Espero que a Justiça tenha bom senso e indenize os ilhéus. Com terra ou com dinheiro'', afirma.
Com a demora, Pereira garante que permanece na Ilha Grande, apesar da proibição. Ele revela que ex-ilhéus estão arrependidos de deixar as propriedades e ameaçam até voltar enquanto o dinheiro não chega. ''Temos de tomar conta do que é nosso por direito'', enfatiza um dos últimos ilhéus que permanecem na área. (F.R.F.)





