Negro trabalha até três horas a mais que branco Os trabalhadores negros têm uma jornada de trabalho superior ao dos trabalhadores brancos que varia de uma a três horas diariamente. As horas extras dependem da região do País. Isto significa que no trabalho os negros não tiveram progresso em relação ao período colonial, quando os escravos chegavam a trabalhar entre 14 a 16 horas por dia. Dados como estes fazem parte do ‘‘Mapa da população negra no mercado de trabalho’’, publicado em outubro do ano passado pelo Instituto Sindical Interamericano pela Igualdade Racial (Inspir), em conjunto com a entidade americana Centro de Solidariedade AFL-CIO e o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese). O mapa traça um quadro detalhado do mercado negro em seis regiões metropolitanas do Brasil. As cidades escolhias foram Belo Horizonte (MG), Distrito Federal, Porto Alegre (RS), Recife (PE), São Paulo (SP) e Salvador (BA). Com o mapa, conclui-se que o racismo e a discriminação estão presentes em cada item pesquisado, chegando a definir vantagens e desvantagens, no trabalho, sustentadas apenas pelo quesito cor/raça. A discriminação racial é também maior do que a discriminação por sexo. Quando as duas se únem o cenário fica ainda mais perverso para as mulheres negras. Os prejuízos para os negros começam pelo seu ingresso mais cedo no mercado de trabalho, o que resulta num grande número de jovens que abandonam as escolas para trabalhar. Sem formação educacional e falta de qualificação, os negros são também as maiores vítimas do desemprego. No total das regiões citadas no mapa da população, 50% dos desempregados eram negros, o que correspondia a quase 1,5 milhão de pessoas em 1998. Os negros, e principalmente as mulheres, ocupam também o dobro das ocupações domésticas em comparação com os brancos. Por outro lado, a proporção de empregadores negros não chega à metade da proporção de empregadores brancos. Entre 24% a 30% dos negros ocupam, também, funções não-qualificadas. contra 10% a 17% entre os brancos. Por outro lado, há poucos negros em funções de direção e planejamento, em cargos como diretores e gerentes, além de empregadores, as quais são, a princípio, caracterizadas por melhores remunerações e condições de trabalho. Contraditoriamente, apesar de Salvador ter a maior população negra entre as regiões pesquisadas, é lá que existe o menor percentual de negros em funções de chefias (5,9%) contra 15,1% no Distrito Federal. Os salários dos negros, em média, são 60% menores do que o dos brancos. Estes dados, segundo o Mapa da população negra no mercado de trabalho, revelam um aspecto crucial da desigualdade social no Brasil: ela resulta não apenas sobre a injusta distribuição de riqueza gerada e de políticas econômicas que beneficiam grupos privilegiados da sociedade, em detrimento dos trabalhadores. Está calcada também sobre diferenciações e comportamentos discriminatórios disseminados por todo o País. ‘‘A justiça social, a igualdade de oportunidades, a cidadania plena, enfim, as condições que ofereçam a todos uma igual distribuição das possibilidades de obter seu sustento e a plena realização de suas capacidades passam, necessariamente, pela construção da igualdade racial no Brasil’’, conclui o documento. (M.G.)