Warren NabucoPalavra de médicoGetúlio Amaral: ‘Se o plano de saúde não cobre este tipo de tratamento está enganando o cliente’ Os médicos nefrologistas de Londrina vão parar de atender consultas pelos convênios de saúde que não garantem assistência aos clientes renais crônicos. A partir do dia 15 de abril, quem tiver qualquer tipo de convênio particular e precisar de um profissional da área vai ter de pagar pelo serviço. Os médicos vão estar cobrando a tabela da Associação Médica Brasileira (AMB) e estarão fornecendo recibos para os clientes serem reembolsados.
A suspensão não vai interferir no atendimento feito aos renais crônicos que precisam de hemodiálise atendidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS), garante o médico e membro do Departamento de Nefrologia da Associação Médica de Londrina (AML), Getúlio José Amaral. Todos vão continuar sendo atendidos. ‘‘Entendemos que, se o plano de saúde não cobre este tipo de tratamento, está enganando o cliente.’’ Ele explica que esta foi a única forma encontrada pelos médicos para chamar a atenção da comunidade para a gravidade da situação dos renais crônicos.
O médico lembra que, para o renal crônico, o tratamento dialítico é uma questão de vida ou morte. Ele afirma que, no seu entender, a lei dá respaldo ao doente para cobrar da empresa à qual é conveniado a devolução do gasto com o atendimento. Através da AML, os nefrologistas acusam as empresas que trabalham com planos de saúde de estarem acomodadas, ‘‘empurrando para o SUS um atendimento que elas deveriam assegurar e agravando a crise do setor’’.
Ele explica que praticamente a totalidade dos convênios de saúde exclui, ‘‘nas entrelinhas’’, o atendimento ao cliente que, por alguma eventualidade, se tornar renal crônico no decorrer do contrato. ‘‘A pessoa faz o convênio pensando que está amparada para, em um momento de necessidade, ter como único recurso o atendimento pelo SUS. É um desrespeito.’’ A suspensão das consultas pelos convênios de saúde foi definida em setembro do ano passado, e conta com o apoio da AML. Em outubro, todas as empresas de convênios de saúde foram avisadas, via cartório, sobre a decisão - e todos os hospitais, oficiados.
O Departamento de Nefrologia colocou à disposição destas empresas uma planilha de custos do serviço. Mas até essa semana apenas uma empresa, a Unimed de Londrina, havia se posicionado a respeito. ‘‘As demais foram procuradas por diversas vezes mas não deram nenhum retorno’’, diz Getúlio Amaral.
Dos 260 renais crônicos em atendimento nos cinco institutos que oferecem o serviço na Cidade, apenas 32 (cerca de 15%) contam com um plano de saúde, representando 416 sessões por mês. Os demais são pacientes do SUS. Getúlio Amaral garante que a qualidade do atendimento, em Londrina, é excelente. ‘‘Estamos entre os melhores centros de nefrologia do país e já somos referência.’’ Mas ele alerta para a possiblidade de falência do setor.
O médico explica que os tratamentos dialíticos são de alto custo em todo o mundo. Uma sessão de hemodiálise tem um custo de R$ 105,00 e um renal crônico precisa de cerca de 13 sessões por mês. O SUS paga R$ 73,20 por sessão.
Além da ‘‘defasagem’’ do preço da sessão, os institutos que prestam o serviço estão enfrentando outra dificuldade: com a municipalização da saúde, a Autarquia Municipal de Saúde estabeleceu um número máximo de atendimentos por instituição. Assim, o hospital Evangélico tem autorização para realizar 575 hemodiálises; o Instituto do Rim, 1.150; a Nefroclínica, 598; e o Hospital Universitário, 300.
O problema é que a demanda é maior que o limite estabelecido pela autarquia. Os institutos estão fazendo, em média, 30 atendimentos a mais que os autorizados por mês - hemodiálises que ficam em haver junto ao Município. O departamento de Nefrologia da AML está negociando com a Prefeitura o aumento do teto. Mas o ideal, diz o médico, seria não haver teto nenhum.
Ele esclarece que, apesar de ninguém estar livre de precisar do tratamento, as doenças dos rins que levam ao quadro de insuficiência renal crônica atingem principalmente as pessoas mais pobres. E a demanda, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), tende a ser acrescida, anualmente, de 108 novos pacientes por milhão de habitantes.
Segundo o médico, o atendimento no Brasil está abaixo do de países como Japão e EUA porque, lá, o sistema de triagem é mais eficiente. Nestes países, o número de renais crônicos em tratamento é de cerca 500 por um milhão de habitantes. ‘‘Isto significa que, mesmo aqui na região, onde a média é de 176 pacientes em tratamento por milhão de habitantes, tem ainda muita gente morrendo de insuficiência renal por falta de diagnóstico ou impossibilidade de acesso ao tratamento.’’
De acordo com uma estimativa futura da AML, a demanda, que hoje é de 2.900 sessões de hemodiálise, passaria a 4 mil até o final do ano, o que aumentaria o gasto da Autarquia Municipal de Saúde dos R$ 218.295,00 atuais para R$ 299.560,00. O médico Getúlio Amaral enfatiza, no entanto, que este custo pode ser amenizado se todos as empresas de convênio de saúde garantirem o tratamento. ‘‘Uma coisa é certa: não seremos nós que vamos decidir quem vai ou não ter o atendimento. Enquanto pudermos, todos vão ter acesso ao tratamento. O perigo é as instituições falirem. Aí todos vão sair perdendo.’’

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