Natureza no campus: seis meses de pandemia mudam o ambiente na UEL

A baixa atividade humana altera rotina e deixa o campo aberto para o aparecimento de animais silvestres; poluição do ar e lixo também diminuíram consideravelmente

Laís Taine - Grupo Folha
Laís Taine - Grupo Folha

Saem as pessoas, entram os animais silvestres, as aves e o silêncio. Os corredores do campus da UEL (Universidade Estadual de Londrina) não são mais os mesmos desde 17 de março, quando as aulas presenciais foram suspensas devido à pandemia do novo coronavírus. A baixa atividade humana dos últimos meses mudou a paisagem e a rotina dos que ficaram. 


Natureza no campus: seis meses de pandemia mudam o ambiente na UEL
Roberto Custódio
 




“Em matéria de desgaste físico, é menor. Nossa carga horária é de 12 horas, mas agora a hora demora a passar”, comenta Dijalma Cesário dos Santos, 65, agente de segurança interno do campus. São 27 anos de trabalho no local e revela sentir falta da movimentação anterior.  




A trabalho, caminha silenciosamente em vigília pelos departamentos. “Dá saudade do agito; essa hora era para o estacionamento estar lotado, gente pedindo informação, eventos, pessoas perguntando, às vezes aparece um querendo saber onde fica o HV (Hospital Veterinário), a gente indica”, relata Santos. 


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Roberto Custódio
 




O estudante Guilherme Ferreira, 24, mora ao lado do campus e notou a diferença. “É estranho, está sempre lotado, dá até medo, na verdade”, revela. A falta de pessoas no local confere um ar de abandono ao estudante, mas compreende ser a nova rotina a trazer essa roupagem à universidade. “Agora, a sujeira é do meio ambiente, com folhas de árvores. Antes era lixo, papel, plástico”, compara. 


No último ano do curso de química, ele acompanha as aulas remotas, mas tem aproveitado para caminhar no Calçadão da universidade diariamente. “Eu até queria ver se tinham macacos, mas essa semana vi nenhum ainda. Eu notei que lagarto tem bastante agora, parece que a UEL está até mais verde”, brinca.  


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Roberto Custódio
 




AUSÊNCIA DOS MACACOS-PREGO

A percepção de uma UEL mais selvagem tem fundamento. A professora Ana Paula Vidotto Magnoni, do departamento de Biologia Animal e Vegetal, da UEL, pretende monitorar a frequências e quais espécies estão utilizando o campus e se isso é benéfico para elas.  


“Registramos o aumento da ocorrência de diversas espécies silvestres. Nós vamos instalar câmeras trap para confirmar”, conta a professora, dizendo que isso deve ocorrer nos próximos dias. “Tenho um aluno que está elaborando o guia das espécies de mamíferos do campus e a pandemia veio a calhar, pois muitas espécies que não tínhamos registro estão aparecendo eventualmente”, acrescenta. 


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Roberto Custódio
 




O fato de o estudante não ter encontrado os macacos-prego, frequentadores assíduos no local, pode ter uma explicação. A professora cita que há possibilidade de mudança de comportamento desses animais, que podem estar frequentando locais diferentes, porém, essa hipótese ainda está em fase de estudo e será melhor analisada após o monitoramento. 


CACHORROS-DO-MATO  E QUATIS

O grupo de pesquisa já registrou diversas espécies no local, como gambás, tatus, roedores silvestres, macacos-prego e cutias, mas agora tem aparecido novos visitantes, como cachorros-do-mato e quatis. “Nos mandaram uma foto do cachorro-do-mato na central de salas na última semana, ou seja, talvez eles sempre frequentaram as áreas mais baixas, como a parte próxima ao ribeirão, mas, por conta da ausência de pessoas, se arriscaram a irem um pouco mais longe”, afirma.  



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Roberto Custódio
 




MENOS LIXO 

Não só a presença de animais, mas a poluição do ar, com menos veículos em circulação, e lixo, diminuíram consideravelmente pela redução de pessoas. A menor frequência humana também alterou a rotina de trabalho para quem faz a manutenção do campus.  


“Mudou a rotina, mas o trabalho continua, a equipe de segurança está com a demanda normalizada, a jardinagem não pode ser dispensada, como também a limpeza do campus, principalmente em relação à dengue”, menciona Daniel Correa, diretor de serviços da PCU (Prefeitura do Campus Universitário).  



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Roberto Custódio
 




O que mudou foi a forma de trabalho. Se antes um jardineiro não podia utilizar as máquinas barulhentas durante o período de aula, agora eles têm mais tempo disponível para o trabalho. “Mesmo assim, nós temos apenas 10 jardineiros em atividade. O campus tem 700 mil m² de área verde, eles levam de 45 a 60 dias para fazer o espaço todo”, afirma o diretor. A  área do campus é de 1.500.017,33 metros quadrados.

 

A equipe de zeladoria teve que focar nos espaços em que as atividades não pararam, como o HV e Hospital das Clínicas, por exemplo. O serviço de transporte também mudou, antes mais voltado a levar alunos, professores e servidores a eventos acadêmicos, agora tem nova função. “Entregas de cestas básicas nas comunidades, buscar doações em outros locais. Aqui nós também temos o Dique-Coronavírus e a gente também faz o transporte dos atendentes”, explica. 



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Roberto Custódio
 






Correa comenta que houve uma redução de pelo menos 80% da frequência da comunidade universitária, que chega a  25 mil pessoas - entre estudantes, professores e servidores técnico-administrativos . Alguns servidores foram afastados e as atividades que demandam presença estão com escala de revezamento. O local está vazio, mas o trabalho continua e com visão para a volta da movimentação. “Mudou a rotina, mas a quantidade de trabalho permaneceu. Nós nos adaptamos, mas já estamos nos preparando para um futuro retorno”, avalia. 

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