Natureza - A transformação do Jardim Maringá
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quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Silvana Leão<br> Reportagem Local 
Ainda povoam a memória dos moradores mais antigos do Jardim Maringá (Zona Oeste) as imagens das ruas sem asfalto e das pequenas casas de madeira, das nuvens de pernilongo que incomodavam o sono das famílias e o cheiro forte que exalava do córrego próximo. O bairro nasceu nas proximidades de um brejo, de uma olaria e de um matadouro de porcos. Hoje os moradores têm um belo parque como quintal, quadras de futebol e de vôlei que recebem estrelas do esporte. As vias antes tomadas pelo barro ou poeira hoje são asfaltadas, e as residências foram reerguidas em alvenaria.
Nos últimos anos o bairro também se tornou conhecido por organizar uma grande festa no Dia das Crianças. A última, de acordo com os organizadores, reuniu aproximadamente 1,5 mil pessoas de várias regiões da cidade. ''Temos aqui um espaço que é um verdadeiro presente para toda a cidade. Nos finais de semana vem gente de longe'', afirma o presidente da Associação de Moradores do Jardim Maringá (Assomar), Osmar Pereira Santana.
Santana passou a infância no local e não esquece as brincadeiras junto ao taboal que tomava conta da área onde hoje é o aterro do Igapó II. ''Meu pai sabia que este lugar um dia ia ser valorizado.'' O presidente da Assomar elogia o espírito de camaradagem existente entre os moradores. ''Aqui um ajuda a olhar o imóvel do outro. A gente sabe, por exemplo, quando alguém viaja e ficamos de olho na casa. Cada morador é uma espécie de fiscal. Acho que na cidade inteira podia ser assim'', argumenta.
Às margens do aterro, feito nos anos 80 pela prefeitura para tornar útil a área do grande brejo, os frequentadores ainda podem desfrutar de um pequeno paraíso, criado pelas mãos habilidosas do empresário aposentado José do Prado de Oliveira, de 72 anos. Desde que se mudou para a Rua Professor Joaquim Matos Barreto, há sete anos, ele fez de um trecho próximo a uma nascente a extensão do seu jardim. Pequenos canteiros de begônias, lírios, beijinhos, petúnias, cavalinha, dividem espaço com orquídeas, pés de pitanga, açaí e trepadeiras.
''Passo umas boas horas aqui, quase que diariamente. É a forma que encontrei de me ocupar, funciona como uma higiene mental'', comenta seo Prado, como é conhecido na vizinhança. A residência da família, explica ele, era algumas quadras mais para cima. ''Antigamente, quando a Avenida Maringá terminava na Faria Lima, o bairro não tinha uma fama muito boa. Depois foi feito um trabalho de urbanização, de legalização dos terrenos, e o bairro melhorou muito.'' Foi quando ele e a esposa, já com os filhos casados, começaram a achar que a casa em que moravam tinha ficado grande demais e decidiram comprar o sobrado às margens do aterro.
''Minha mulher teve a idéia de começar a plantar os beijinhos, e daí não parei mais.'' Os dias incontáveis de trabalho resultaram na limpeza da nascente e do pequeno córrego, antes tomados pelo mato; na construção de uma pequena barragem, que permitiu a criação de peixes e de uma pontezinha, que desemboca em uma bucólica cabana inicialmente coberta de palha; e na certeza que é possível transformar em algo melhor o espaço que nos rodeia.
A receptividade por parte da população, porém, nem sempre é a sonhada pelo jardineiro. ''Tive que colocar esta cerca porque as pessoas pisavam e até passavam de moto por cima dos canteiros. Acho que a cerca enfeia, mas não teve jeito'', explica. A falta de educação também o obrigou a mudar as orquídeas de lugar. ''No começo coloquei várias nas árvores, bem visíveis, no baixo. Mas bastava florescer que no dia seguinte já não estavam mais lá'', ressente-se. A solução foi colocar as belas plantas no alto, longe das mãos indesejáveis e visíveis apenas a olhares atentos.
Maria Aleixo, de 68 anos, é moradora das mais antigas do Jardim Maringá e conta como era viver no grande triângulo que delimita o bairro. ''Eu conseguia dormir porque durante a semana pernoitava no emprego. Aqui era só pernilongo.'' Com a simplicidade de quem nunca frequentou escola, Maria define os longos anos amassando barro e pedra: ''Passamos uma crise forte aqui, no meio da quiçaça. Em vista do que tivemos, hoje está ótimo'', avalia a moradora da Rua Charles Robert Darwin.


