Natal dos carentes: Uma festa que é tudo para eles
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terça-feira, 19 de novembro de 1996
Luka Morais 
Clima de festa, chegada do Natal. Nas entidades que atendem crianças carentes, abandonadas, esta é uma época de grande expectativa. A garotada que nunca recebeu a visita do Papai Noel em casa - muitas nem casa têm - aguarda com ansiedade ao menos uma festinha com direito a bolo e bexigas e, quem sabe, um presentinho, por mais simples que seja. Para não decepcionar a criançada, voluntários se esforçam, muitos deles no anonimato, para arrecadar roupas, calçados, brinquedos e doces.
No Lar Anália Franco, onde são atendidas 360 crianças e jovens de zero a 18 anos, a idealizadora da festa de fim-de-ano, que prefere não ser identificada, já conseguiu a ajuda de vários padrinhos. Eles vão ficar responsáveis por conseguir as roupas e calçados das crianças e pelos presentes de Natal. O Lar, como a maioria das entidades, sobrevive com doações.
Os internos adoram. Esta festa é tudo para eles, resume a monitora Silvana Beraldi. As crianças, ela conta, esperam a festa o ano inteiro. Este ano, ela acontece na tarde do dia 14 de dezembro, quando as crianças do regime de externato entram de férias.
A pedagoga do Lar Anália Franco, Maristela Ernandes Laranjeira, revela que há pessoas que costumam aos domingos visitar as crianças internas, dedicando atenção e carinho a elas. Mas entende que, no período que antecede o Natal, as crianças se enchem de expectativa e necessitam de mais atenção.
Ela revela que algumas que são levadas para passar o Natal com as famílias apresentam um comportamento alterado ao retornar às atividades normais. Não são todas, mas algumas por viverem alguns dias irreais, ao voltar para a realidade ficam revoltadas, comenta. Mas ao menos têm um momento de felicidade.
A organizadora da festa de Natal do Lar, há 10 anos, entende que a iniciativa não acrescenta muita coisa mas é, pelo menos, um dia feliz que podemos proporcionar a elas. Ela revela que já pensou em pôr fim à festa mas, diante da expectativa das crianças, desistiu da idéia. Quando a gente vê a alegria no rosto das crianças... A organizadora acredita que, se as pessoas procurassem se doar mais às crianças, o mundo delas seria melhor. Elas são carentes de carinho, de amor, atenção, mas também têm carências materiais.
A Casa do Caminho, que existe há 9 anos, e atende 100 crianças de dois a 17 anos, nasceu com um grupo de pessoas que fazia ronda pela cidade servindo sopão. Ao constatarem a necessidade de um albergue infantil, decidiram dar um giro pela cidade e recolher as crianças que estavam nas ruas. Na época, conseguiam recolher no máximo 10 crianças. Se fosse hoje, a gente enchia um ônibus, compara Tânia Regina Silveira, coordenadora da Casa.
As crianças, na época eram levadas para uma chácara, e acabaram gostando do local. Assim nasceu o albergue infantil. O mesmo grupo de voluntários que decidiu cuidar das crianças, preparar a sopa, cuidar das roupas, hoje assiste as crianças. Quando não tínhamos a ala para os que têm doenças contagiosas, a saída era mandar as crianças para os voluntários que não têm filhos pequenos. Chamo isso de exploração de voluntários, brinca Tânia.
O presidente da entidade, Júpiter Villóz Silveira, diz que dos cerca de 60 voluntários da Casa do Caminho, alguns atuam diretamente na entidade, outros fazem campanhas à parte e dão sua contribuição indireta. Preocupados com o aumento dos gastos do final do ano, com o pagamento de férias, 13º dos funcionários - a Casa emprega 22 pessoas - os voluntários vão promover no dia 28 de novembro um jantar no Iate Clube, junto com a Aliança Francesa, para obter recursos.
São os voluntários que desenvolvem campanhas para arrecadar brinquedos de Natal. Mas o presidente da entidade observa que, na Casa do Caminho, as crianças têm a noção exata do significado da festa cristã. A distribuição de brinquedos, que caracteriza a festa do Papai Noel, diferencia Júpiter, acontece uma semana antes do dia 25 de dezembro. Isso para que fique bem claro que o Natal é a festa do natalício de Jesus, o início do Cristianismo, e que o Papai Noel é mais comercial.
Nos dias que antecedem o Natal, as crianças vão participar de teatro sobre o nascimento de Jesus. A celebração é antecipada, já que as crianças, com exceção de duas que necessitam de tratamento especializado, costumam passar o Natal na casa dos voluntários. Tem algumas que passam as férias todas fora, vão para a praia e só voltam no início das férias, conta Tânia, que já passou o Natal com 26 crianças. São os grandões e os mijões que ninguém quer.


