Jundiaí do Sul - Conseguir um trabalho, ainda que temporário, saber a hora em que o médico vai visitar a cidade ou notificar a morte de uma pessoa conhecida na comunidade. Em cidades do interior, como Jundiaí do Sul e Ribeirão do Pinhal, no Norte Pioneiro, esse tipo de comunicação é feito de maneiras inusitadas, como alto-falantes em carros e até mesmo na torre da Igreja.
Em Jundiaí do Sul, cidade com aproximadamente três mil habitantes, quem presta esse serviço é a Igreja Matriz, por meio da voz de Luiz Antonio da Silva. Há 15 anos ele resolveu trocar São Paulo pela localidade, em busca de tranquilidade.
O tradicional serviço dos alto-falantes da torre com mais de 20 metros de altura anuncia há pelo menos três décadas as vagas de empregos nas lavouras de cana e de café da região, o calendário de vacinação e as notas de falecimentos.
''Sempre tem algo para anunciar e quem mora na cidade acaba ouvindo isso e se beneficiando'', comenta Silva, que está na função de locutor há 12 anos.
As mensagens são transmitidas quase sempre após a ''Ave Maria'', na ''Hora dos Anjos'', às 18 horas, ou no horário comercial, de acordo com a necessidade.
O serviço é tão importante para a comunidade que, quando a igreja entrou em reforma e precisou desligar o alto-falante por quatro meses, no início deste ano, gerou várias reclamações.
''O pessoal vinha me perguntar quando voltaria o trabalho e por que havia sido suspenso'', relembra. ''Uma senhora que usava a 'Hora dos Anjos' para tomar o remédio ficou bem chateada.''
Sonoplastia
O padre Ivan Néia, que atende na Paróquia há cinco anos, diz que o trabalho informa a população independente de crença religiosa. Segundo ele, para cada comunicado é disparado um tipo de música para tornar mais fácil a identificação do que está para ser informado.
''Se anuncia de tudo. Esse é o meio mais rápido de todos saberem o que acontece e, para identificarem prontamente, colocamos um som diferente'', explica Néia.
O alto-falante da igreja serve até mesmo como relógio para a cidade e já se tornou um sinal identificador para as pessoas da comunidade. ''Nós sabemos de histórias em que pais pedem para filhos voltarem da casa de colegas na 'Hora dos Anjos' e quando o aparelho toca todo mundo sabe'', afirma.
Para a professora aposentada Maria Célia Pinto de Almeida o serviço de utilidade pública prestado pelas cornetas na torre da paróquia é uma das formas mais eficazes e importantes das quais a cidade se utiliza para o bom funcionamento do município.
O comerciante Pedro Prestes argumenta que a ''Hora dos Anjos'' é hoje o momento mais aguardado da cidade e que se lembra dele desde os tempos de criança. ''É o melhor meio de comunicação que a gente tem e sempre ajuda porque acaba passando alguma informação que você precisa.''

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